Ch de Dvidas

Lisa Simpson votaria em Hillary?

Se você, que lê este texto, mora na região metropolitana do Rio de Janeiro, recomendo que cadastre-se numa das Bibliotecas Parques do governo do estado. A maior é aquela na Pres. Vargas, próxima ao Campo de Sant’Anna, em frente à Central do Brasil. Tem também a de Niterói, em frente à Câmara Municipal. Tem uma em Manguinhos e outra na Rocinha. Com a carteirinha, você pode pegar livros emprestados em todas elas.

ArquivoExibirNa Biblioteca Parque da Pres. Vargas, várias vezes deparei-me com a autobiografia de Bill Clinton na estante e adiei a leitura. Na de Niterói, tão logo pus os olhos na autobiografia de Hillary, “Vivendo a História” (Editora Globo), tomei-a emprestada. É uma leitura empolgante que recomendo a todos. É a fala de uma mulher que viveu os bastidores da História, pensei.

Enganei-me. Hillary, senadora na época em que escreveu o livro, e, no momento em que escrevo, Secretária de Estado do governo Obama e possível candidata do Partido Democrata à sucessão de seu chefe, é mais que a esposa de Bill Clinton. Ganhou a vida como advogada e, antes disso, militou contra a Guerra do Vietnã, a favor dos direitos civis dos negros (influenciada pela ala progressista da Igreja Metodista, da qual é adepta – no livro, ela narra a disputa interna entre a ala progressista e a ala conservadora da igreja, e, tendo ela amizades em ambas as frentes, isso certamente a treinou para o ambiente político, penso eu) e, como advogada, participou da elaboração do processo que resultou no impeachment de Nixon. Senhora de si, não quis adotar o sobrenome do marido e continuou assinando Hillary Rodham enquanto primeira-dama do Arkansas, o que causava estranheza no eleitorado. Só tornou-se oficialmente Clinton quando o marido já cobiçava a Casa Branca.

No livro, é empolgante sua campanha pela ampliação do direito à saúde pública para todos os americanos. (Hillary, tal como Obama, sonha com um SUS made in USA.) Seu confronto com o fundamentalismo (Hillary defende os direitos civis LGBTs, o aborto e tantos outros temas que incomodam os religiosos que não aceitam as diferenças) a levou a demonstrar na prática o significado do Estado laico, princípio sagrado da Constituição americana: quando primeira-dama dos EUA, decidiu agradar os turistas de diversos credos decorando a Casa Branca conforme as festas das diversas religiões – decoração para o Natal dos cristãos, para o Chanucá dos judeus, e também para uma festividade muçulmana cujo nome não me recordo e estou com preguiça de buscar no livro agora.

Hillary é uma incansável defensora dos direitos das mulheres. Durante os dois mandatos do marido, deu a volta ao mundo para promovê-los. E, na Índia, onde viu algumas mulheres reclusas por regras machistas e outras conseguindo a independência financeira graças a programas de microcrédito que as tornaram empreendedoras, teve a sensibilidade de inserir em seu discurso um poema escrito por uma estudante adolescente, Anasuya Sengupta, que, graças a esse gesto de generosidade da visitante estrangeira, tornou-se uma voz atuante na defesa dos direitos das mulheres em seu país, depois que centenas de jornalistas lhe pediram cópias de seu poema. (“Muitas mulheres / Em muitos países / Falam a mesma linguagem. / Do silêncio… (…) Nós só buscamos dar palavras / a quem não pode falar / (muitas mulheres / em muitos países) / Eu só busco esquecer / A dor do silêncio / da minha avó.”)

Durante todo o livro, vemos os fundamentalistas atacarem o casal Clinton e aliarem-se aos setores mais conservadores da política para impedir a expansão dos direitos a serviços públicos. E contra eles, Hillary prescreve a seguinte receita:

“Um dos motivos pelos quais defendo a melhoria do nosso sistema de escolas públicas, pelos padrões mais altos e maior responsabilidade, e me oponho ao seu enfraquecimento pelo crédito escolar, é que elas reúnem crianças de todas as raças, religiões e formações, e têm moldado e sustentado a nossa democracia pluralista. Poucos países do mundo se beneficiam de tal diversidade na educação. Ao se desenvolver cada vez mais diversificada, em nossa sociedade se tornará ainda mais importante as crianças estudarem juntas e aprenderem a tolerar e respeitar suas diferenças, ao mesmo tempo em que afirmam a sua humanidade comum.” Págs. 476-477.

(Durante todo o tempo em que li o livro, tive a impressão que era contra Eduardo Cunha, Marco Feliciano e seus iguais que o casal Clinton batalhava. Talvez porque a estupidez seja igual em todos os países.)

Tal como muitos religiosos gostariam que Jesus voltasse para resolver todos os seus problemas, eu gostaria que Lisa Simpson se tornasse a primeira mulher a governar os EUA, mas, diferente deles, eu reconheço que minha vontade é apenas um sonho. Na falta de Lisa, torço por Hillary.

Só para finalizar: em visita à Irlanda do Norte, Hillary ironizou uma figura da televisão local que, ao receber um grupo de deputadas, perguntou: “Quem ficou com as crianças?”. Hillary lacrou: “Anseio pelo dia em que essa mesma pergunta seja feita aos homens.”

Sim, as memórias de Hillary são uma grande leitura!

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Edson Amaro De Souza

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro perdeu toda e qualquer esperança de ser normal. Paga suas contas lecionando Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, delicia-se praticando teatro de vez em quando, comete a imprudência de escrever versos, atreve-se a praticar a arte da tradução e, como se não bastasse, torce pelo Vasco da Gama. Gosta de tomar chá e semear dúvidas.

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4 respostas

  1. Roberta Sousa disse:

    mitou… Lisa colocaria esse ponto como algo positivo na hora de decidir o voto, mas cética como é, esse não seria o único ponto analisado por ela! hehehehehe

  2. show!! livro adicionado na fila :)

  3. RELIGIÃO E COMO ME TORNEI ATEU, se gostar assista completo no YouTube por favor 😉 https://www.facebook.com/RAVlog/videos/1629615007291793/

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