Ch de Dvidas

Nem só de repressão sexual vive a CNBB

Engana-se quem pensa que a vida dos bispos católicos se resume em tentar controlar nossa vida íntima ou nos convencer que milagres acontecem. De vez em quando, eles arrumam tempo para fazer algo útil para a sociedade. A Campanha da Fraternidade é um desses eventos e tem data certa para acontecer: começa na Quarta-Feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos.

Vou explicar: o Carnaval existe por causa da Quarta-Feira de Cinzas. A Terça-Feira Gorda que o antecede era uma grande festa no período medieval em que as pessoas se despediam da carne, pois só voltariam a tê-la em suas mesas após a Páscoa. Na Quarta-feira de Cinzas, os fiéis recebem cruzes de cinzas na testa para lembrar-lhes de que morrerão um dia e começa o período da Quaresma, quando devem meditar, durante 40 dias, na Paixão e Ressurreição de Cristo, buscando adequar suas vidas aos princípios cristãos. Desde 1964, a CNBB promove durante a Quaresma a Campanha da Fraternidade e, desde 1973, os temas da CF têm um viés social. Assim, já foram discutidas durante a CF, a Saúde pública (1981 e 2012), a fome (1985), Educação (1998), povos indígenas (2002), Amazônia (2007) e tantos outros temas.

Este ano, o tema foi “Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”.

cnbb

Todos os anos eu compro um exemplar do texto-base numa livraria católica pois gosto de ver como a CNBB consegue falar de temas complexos numa linguagem simples e até aproveito alguns parágrafos em minhas aulas de Gramática, porém, este ano, o livro peca por um descuido na linguagem: há vários erros de pontuação ao longo do texto – falta de um bom revisor. Na pág. 38, cometem o erro histórico de declararem Antônio Conselheiro um seguidor do padre Cícero – embora Euclides da Cunha em Os Sertões acuse o sacerdote de cumplicidade com o revoltoso, a verdade, conforme exposta por Lira Neto, autor de uma biografia crítica de Cícero, mostra que nunca houve contato entre esses dois famosos personagens.

Sempre recomendo a educadores e ativistas sociais a leitura desses livros.  A CNBB gosta de expor estatísticas, usa como fontes textos de órgãos oficiais (e dá links para quem quiser acessá-los) e gosta de citar legislações.  Por exemplo, ao mencionar os povos e comunidades tradicionais que habitam o bioma do Cerrado, o texto-base, na pág. 43, menciona que seus direitos estão garantidos pela lei 11.326/2006.  Menciona também, na pág. 52, que a Lei da Mata Atlântica (11.428/2006) tramitou por 14 anos no Congresso para ser sancionada somente em 2006.

Todos os anos, os textos da CF estruturam-se em três partes:

1) VER – essa é a parte que deveria interessar a todos, católicos ou não, pois é aí que a CNBB coloca os conceitos do tema abordado, as estatísticas, legislação e quanto mais é relevante, em linguagem bem fácil;

2) JULGAR – nessa parte o tema é discutido sob a ótica do pensamento católico e tudo o que foi exposto na primeira parte volta nessa recheado de textos bíblicos, encíclicas e discursos papais. Por exemplo, na página 85, citam a encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI, em que o hoje papa emérito diz: “A Igreja tem uma responsabilidade pela criação e deve fazer valer essa responsabilidade também em público. E, ao fazer isso, deve defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos. Deve proteger o homem contra a destruição de si mesmo.” (Embora use o termo “criação”, vale lembrar que o Vaticano e a CNBB não repetem os discursos criacionistas das vertentes fundamentalistas. João Paulo II e Francisco já reconheceram publicamente o valor de Darwin e o texto da CNBB. O próprio texto-base afirma que o bioma Cerrado existe há 65 milhões de ano e que os seres humanos estão lá há 11.000 anos, enquanto grupos criacionistas como as testemunhas de Jeová afirmam que a humanidade existe há apenas 6 mil anos.);

3) AGIR – nessa última parte, a CNBB coloca propostas que os fiéis devem seguir e defender tanto individualmente (“Despertar para a beleza dos biomas e a necessidade do cuidado”, pág. 92, “Valorizar os elementos e os significados das artes, músicas e outras expressões da cultura amazônica, pág. 94) como coletivamente (“Defender as temáticas das questões ecológicas dentro da educação popular e regular”, pág. 94, “Defender a demarcação dos territórios indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais”, pág. 98) e até defende políticas de Estado (“Incentivar a energia eólica, com projetos que sejam do interesse das comunidades tradicionais, respeitando seus territórios”, pág. 95. “Apoiar a produção agroecológica camponesa com base na agricultura familiar, como alternativa ao latifúndio e o agronegócio”, pág. 98.).

No Domingo de Ramos, por fim, é feita uma coleta nas igrejas de todo o Brasil – as cestinhas e sacolinhas nos quais se recolhem as ofertas dos fiéis antes da consagração da hóstia – e esse dinheiro é repassado para a CNBB e esta afirma que usa o dinheiro para promover projetos sociais que tenham relação com o tema abordado. Todos os anos, no final do livrinho, há a lista com todas as dioceses do Brasil e o quanto cada uma arrecadou para esse propósito.

Diz o ditado que de boas intenções o Inferno está cheio. Por mais que eu goste dos livrinhos da CF, parece-me que o discurso de repressão sexual interessa mais ao povo brasileiro que discutir desenvolvimento e ecologia, pois a quantidade de gente condenando os beijos gays na TV é bem maior que a quantidade de pessoas defendendo a demarcação das terras indígenas.

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


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1 resposta

  1. Naum acredito q esse é o tema! To pasmo…

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