Acumuladores

por Caio Nascimento

Você conhece alguma pessoa que não consegue jogar nada fora, acumulando uma enorme quantidade de tralhas que provavelmente nunca utilizará, preenchendo cômodos e mais cômodos com objetos ou animais de uma forma que parece doentia? Pois pode mesmo ser! Conheça o transtorno de acumulação, uma desordem grave que acomete milhares de pessoas ao redor do mundo!1Estima-se que de 3% a 5% da população dos Estados Unidos apresente algum nível de transtorno de acumulação. (Van Pelt, 2011)

O transtorno de acumulação (TA) foi descrito pela primeira vez em 1975, sendo caracterizado como um grave abandono das condições de higiene pessoal, habitacional, acumulação compulsiva de objetos sem utilidade ou animais em locais sem a devida estrutura para recebê-los.

O transtorno é conhecido também como “Síndrome de Diógenes”, fazendo referência a Diógenes de Sinope (conhecido também como Diógenes, o cínico), um filósofo da Grécia antiga cuja vida é conhecida majoritariamente através de anedotas. Diógenes fora exilado de sua cidade natal e passou a viver em Atenas, tornando-se discípulo de de Antístenes. Já em Atenas, teria se tornado mendigo, habitando em um barril e perambulando pela cidade em posse de uma lamparina que carregava durante as dias em sua busca por um homem honesto. Diógenes também era conhecido por seu apreço aos animais, especialmente cachorros, e em pinturas como as de Jean-Léon Gérôme (1824-1904) aparece cercado por eles mesmo em sua extrema miséria.

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Segundo Stumpf e Rocha (2010), a incidência anual do transtorno é de 5/10.000 entre pessoas acima de 60 anos, e pelo menos a metade destas seriam portadoras de demência ou algum outro transtorno psiquiátrico. Ainda segundo estes, as principais hipóteses etiológicas associadas ao transtorno são:

1) a condição representaria o “estágio final” de um transtorno de personalidade;

2) o transtorno seria uma manifestação de demência do lobo frontal;

3) o transtorno seria o estágio final do subtipo “hoarding” (em português, “acumulação”) do transtorno obssessivo-compulsivo;

4) o transtorno seria uma via final comum a diferentes transtornos psiquiátricos, especialmente aqueles associados ao colecionismo (a compulsão por guardar coisas);

5) o transtorno seria precipitado por fatores estressores biológicos, psicológicos e sociais, associados com a idade, em indivíduos que apresentam traços de personalidade com predisposição a acumular de tudo.

As redes de televisão norte-americanas produziram inúmeras vezes séries abordando o transtorno de acumulação, onde apresentavam massivas retiradas de objetos e resgates de animais submetidos a condições de higiene precárias. Mesmo diante da tentativa inescrupulosa de transformar em entretenimento algo tão sofredor, é possível observar de forma bastante chocante o quão prejudicial à saúde do indivíduo que sofre com este transtorno o ambiente pode se tornar. Pilhas de livros, aparelhos eletrônicos, restos de comida, cabos variados, meias, caixas vazias, revistas e centenas de outros objetos acabam formando pilhas gigantescas que acumulam poeira e fungos, podendo ocasionar aos moradores as mais variadas doenças, inclusive complicações respiratórias graves como pneumonias, infecções etc.

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O transtorno da acumulação (TA) é considerado uma psicopatologia e foi incluída recentemente na nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) da American Psychiatric Association (APA 2013a). Segundo Pertusa et al., 2010; Lima, 2011; Mataix‐Cols & Pertusa, 2012 apud Schmidt, Della Méa e Wagner 2014: “o comportamento de colecionar e acumular objetos encontra-se presente em todas as populações, variando entre espectros de normal a patológico. Dessa forma, pacientes com transtorno de acumulação tendem a guardar e armazenar itens aleatórios, acreditando que esses objetos poderão ter utilidade futuramente e apresentar algum valor financeiro ou afetivo, sentindo-se mais seguros ao guardá-los”.

No caso da acumulação de animais, os indivíduos podem adquirir uma grande quantidade de animais (que podem chegar às dezenas ou mesmo centenas) que não raro são mantidos em espaços inadequados ou em condições inseguras e insalubres (APA, 2013b). Por vezes, os sujeitos que manifestam essa forma específica do TA não conseguem satisfazer os cuidados básicos de que um animal precisa, mas continuam a mantê-los consigo. Eles são “movidos por sentimentos de dó e compaixão para com animais em situação de abandono ou maus-tratos, apresentando, inclusive, dificuldades em livrar-se deles mesmo após a morte dos bichos”.

Há de se ressaltar que, entretanto, que apenas a retirada de objetos e animais do ambiente não configuram um tratamento específico. Ainda que ajudem a evitar comorbidades2Ocorrência de duas ou mais doenças simultaneamente. relacionadas ao transtorno, existem grandes probabilidades de que o indivíduo volte a acumular objetos e trazer animais para o ambiente caso não receba o devido acompanhamento psicoterápico e psiquiátrico.

A ideia do “tratamento de choque” apregoado pelas emissoras de TV sensacionalistas, portanto, não passa de uma visão romantizada que não reflete a totalidade do sofrimento pessoal e familiar ocasionado pelo transtorno.

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Referências:

American Psychiatric Association (APA). (2002). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV-TR. Porto Alegre: Artes Médicas.

American Psychiatric Association (APA). (2013a). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5. ed. Arlington, VA: American Psychiatric Association.

American Psychiatric Association (APA). (2013b). Hoarding Disorder. Recuperado de http://www.psychiatry.org/mental-health/key-topics/hoarding-disorder.

American Psychiatric Association (APA). (2013c). Highlights of changes from DSM-IV-TR to DSM-5. Recuperado de http://www.psychiatry.org/dsm5.

VAN PELT, Jennifer. (2011)  Treating People Who Hoard — What Works for Clients and Families. Social Work Today. Vol. 11 No. 3 P. 14.

SCHMIDT, Diego Rafael; DELLA MEA, Cristina Pilla; FORTES WAGNER, Marcia. Transtorno da Acumulação: características clínicas e epidemiológicas. CES Psicol,  Medellín ,  v. 7, n. 2, p. 27-43,  Dec.  2014 . Available from <http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2011-30802014000200004&lng=en&nrm=iso>. Acessado em 31  de agosto de 2016.

STUMPF, Bárbara Perdigão; ROCHA, Fábio Lopes. Síndrome de Diógenes. J. bras. psiquiatr.,  Rio de Janeiro ,  v. 59, n. 2, p. 156-159,    2010 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852010000200012&lng=en&nrm=iso>. access on  31  Aug.  2016.  http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852010000200012.

Referências   [ + ]

1. Estima-se que de 3% a 5% da população dos Estados Unidos apresente algum nível de transtorno de acumulação. (Van Pelt, 2011)
2. Ocorrência de duas ou mais doenças simultaneamente.

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