Dialtica

A Câmara nas garras do fundamentalismo

Mal esquentou a cadeira da presidência da Câmara dos Deputados, e o Deputado Federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), membro da bancada evangélica, já mostrou ao que veio: seguindo a cartilha teocrática da bancada da qual faz parte, em poucos dias o parlamentar já se posicionou de forma veemente contra liberdades individuais contrárias aos dogmas da sua crença, atuou no sentido de impedir avanços nos direitos dos homossexuais e maculou a casa legislativa que preside com um ritual religioso.

Quando alertei para o risco da ascensão dos fundamentalistas no meu vídeo “A Ameaça das Bancadas Religiosas”, em julho de 2013, expliquei que o plano dos parlamentares teocratas se baseia na tomada de poder paulatinamente. Um projeto de lei aqui, um deputado a mais sendo eleito acolá, e tanto a influência dos evangélicos aumentará, como seus arroubos anti-laicistas passarão a ser vistos com mais condescendência. A chegada de um deputado com o perfil de Cunha na presidência da Câmara é um passo importante neste ameaçador avanço da frente teocrática.

Nesta segunda-feira, 9, Eduardo Cunha, que foi eleito para o cargo com apoio maciço da bancada evangélica, declarou-se radicalmente contra a votação de qualquer projeto de legalização do aborto no Brasil. O fervor com que promete combater qualquer tentativa de salvar a vida de centenas de mulheres que morrem anualmente no país em clínicas de aborto clandestinas foi escancarado com uma declaração bem ao gosto dos correligionários apreciadores de discursos inflamados: “Vai ter que passar por cima do meu cadáver para votar”.

No dia seguinte, Cunha ainda teve fôlego para mais uma vez manifestar seu total desprezo à laicidade constitucional, ao criar uma comissão especial com o objetivo de acelerar a tramitação de um projeto que reconhece como família apenas os núcleos sociais formados da união de um homem e de uma mulher, o famigerado “Estatuto da Família” – que visa, obviamente, impedir que a união de casais homoafetivos possa ser considerada como uma família. A motivação religiosa deste retrocesso social é evidente, e Eduardo Cunha aqui faz o papel de raposa que tem a responsabilidade de tomar conta do galinheiro.

Na manhã do mesmo dia, o presidente da Câmara participou de um culto organizado pelo presidente da bancada evangélica, Deputado João Campos (PSDB‬-GO). “Não vou abrir mão dos meus princípios cristãos pelo fato de estar na presidência da Câmara.”, disse Cunha. Nenhum problema com o direito do deputado exercer seu direito à religiosidade. O problema é que o culto, mais uma vez, ocorreu nas dependências da Câmara dos Deputados. Ou seja, instalações públicas que deveriam ser utilizadas com fins bem diferentes da execução de cerimônias religiosas. Cabe a pergunta: a bancada aceitaria que o mesmo espaço fosse reservado, em algum dia da semana, para práticas de rituais religiosos de umbanda, por exemplo?

A verdade é que Eduardo Cunha é um legítimo representante, não do povo, mas da bancada evangélica. E como grande parte da mesma, tem pecados a serem expurgados com a justiça! Cunha responde a um inquérito no STF por crimes contra a ordem tributária, e a outras ações por crime de improbidade administrativa.

Típico!

 


Vídeo “A ameaça das bancadas religiosas”:

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David Ayrolla

David Ayrolla

David Ayrolla é carioca, mas tem dúvidas se nasceu no planeta certo. Cético até a medula, vê na ciência e na filosofia as melhores ferramentas para a compreensão do universo. Vlogger do canal PAPO DE PRIMATA, tem como principais hobbies cinema, literatura e discussões acaloradas com os amigos (de preferência, regadas a cerveja bem gelada).

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4 respostas

  1. Elrison disse:

    Cara eu não sei o porque fundamentalismo?? Você é o que mesmo com esse papo de merda…….eu tenho filhos e não quero nenhuma lei de merda mudando o meu jeito de ser assim como a PL122….é uma merda esses teus comentarios seu bosta…seja responsavel com suas criticas pois temos crianças…direitos e deveres….e não quero nenhum viado dando aula com o maldito Kit gay nas escolas seu MERDA…………….

  2. Alvaro disse:

    Precisamos de menos Elrisons e mais Davidson Airollas. Com o comentário grosseiro, intolerante e desrespeitoso dele vemos o quão importante é repensar estratégias para a manutenção da laicidade.

    • César Trevizan Righi disse:

      Às vezes, eu chego sentir saudades de Enéas Carneiro e não é porque eu acho que ele era bom, pois eu considero Enéas Carneiro conservador embora ele nunca tenha sido tão reacionaário como Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro e Marco Feliciano. Eu não quis, não quero nem estou querendo defender Enéas Carneiro. É importante que entendamos que os piores conservadores são os mais reacionários, ou seja, aqueles que não entendem que as sociedades mudaram seus paradigmas e reciclaram suas ideias ao longo de toda a História da Civilização. Enfim, cabe que ressaltar que os conservadores não são pessoas boas no referente à promoção da cultura, da filosofia, do criticismo, do ceticismo, do racionalismo, do conhecimento científico e do respeito aos direitos humanos.

  3. César Trevizan Righi disse:

    Enquanto os fieis desses sem números de igrejas neopentecostais persistirem em continuar votando em candidatos só porque são pastores, vamos permanecer comendo merda nas mão de representantes de grupos conservadores, sobretudo dos religiosos cristãos neopentecostaais e permaneceremos comendo bosta nas mãos de pessoas reacionárias que acreditam que tem que morrer quem defende valores morais diferentes dos que fazem parte daquilo que essa mesma bancada religiosa conservadora e reacionária chama de moral e bons costumes.

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