Interldios Filosficos

A construção intelectual em conjunto: um ensaio

Neste texto, vamos tentar analisar informalmente alguns mecanismos comuns que aparecem quando duas ou mais interlocutoras estão dialogando a fim de chegar a conclusões acerca de determinando assunto. Após expormos tais mecanismos e os problemas decorrentes, vamos propor uma estratégia que visa atenuar tais contratempos.

Nota: Esse texto será escrito numa linguagem de gênero mais neutra, na qual o gênero ativo, de quem escreve, ou receptivo, de quem lê, será ora assumido ser masculino, ora feminino.

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Uma das principais diferenças entre nós, seres humanos, e outras espécies é a nossa capacidade de interagir através de sistemas complexos de comunicação. Esses sistemas são o que chamamos de línguas e acredita-se que existam mais de 5 000 deles no mundo1https://en.wikipedia.org/wiki/Language. Poderíamos argumentar que muito do nosso desenvolvimento cultural, científico e social se deve justamente pela comunicação efetiva entre os diferentes membros da nossa espécie.

Como é de conhecimento geral, esse mesmo desenvolvimento só foi, e continua sendo, possível através de extensas conversas que transcendem até mesmo o tempo e o espaço, como exemplifica Alex Castro no seu texto “A Grande Conversa”2http://alexcastro.com.br/a-grande-conversa/. Então, basicamente desde a aurora da humanidade, nós conversamos, nós discutimos, nós tentamos alcançar conclusões a respeito de diversos assuntos, muitos dos quais extremamente polêmicos e divergentes, motivos até para conflitos armados.

Portanto, somando junto questões polêmicas e a pluralidade de pessoas, é natural esperar que o diálogo seja problemático, minado por diferentes mecanismos sociais e psicológicos que permanecem implícitos, muitas vezes. Acredito que concordaríamos, sobretudo com o advento da internet e redes sociais, com essa constatação, mas também faço uso das minhas próprias evidências anedóticas ao inferir tal problemática.

Vamos às dificuldades, então.

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“- Você está vindo dormir? – Eu não posso… Isso é importante! – O quê?! – Alguém está ERRADO na internet!.”

Primeiramente, uma situação muito comum é que nós resistimos a reconhecer a opinião dos demais. Isso é natural que ocorra, uma vez que geralmente estamos mais preocupadas em expor nossos próprios pontos de vista e convencer os outros. E, quando paramos para ouvir, muitas vezes o fazemos para poder encontrar inconsistências, falácias, falhas no discurso alheio, para então continuarmos nossos avanços estratégicos no campo de batalha das ideias. Ainda que isso já seja um impedimento para que a conversa flua melhor, há ainda outras questões que merecem ser levantadas.

Tipicamente, nós não reconhecemos que as nossas interlocutoras provavelmente têm um conjunto diferente de princípios a priori, o qual serve como input, base, para alcançar quaisquer que sejam suas conclusões. Vamos tentar ilustrar melhor esse ponto através de uma pequena analogia.

Imagine que você queira fazer e servir um bolo. Podemos concordar que esse processo pode ser dividido em três partes: i) reunir os ingredientes; 2) seguir passo a passo a receita; 3) uma vez assado, serví-lo para as convidadas.

Bom, se você já fez bolo seguindo a receita de outras pessoas ou você mesma já emprestou a sua receita para alguém, provavelmente já deve ter acontecido que mesmo a seguindo passo-a-passo, o bolo pode ter batumado, adquirido outra textura, sabor, etc. Assumindo que a receita tenha sido seguida precisamente e até o mesmo forno utilizado (tal como quando você mesma repete o bolo!), o que pode ter acontecido então?

Não é difícil imaginar que o problema pode estar com os ingredientes. Afinal, existem tantas marcas de farinha, fermento, açúcar, sal, diferentes tipos de ovos, leite, etc, sem contar a data da validade de cada! Logo, vemos que apesar da receita ser fundamental, é visto que ela sozinha não é garantia para obter o mesmo bolo. E olha, isso que supomos que a receita foi seguida igualmente por todos, o que é longe de ser o caso!

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“E se eu te dissesse que fazer um bolo não é tão fácil assim?”

Pois bem, de um certo modo, conclusões são parecidas com bolos, enquanto a lógica (seja fundamentalmente matemática ou mais emergente, tal como a utilizamos cotidianamente na língua falada e escrita) é nossa receita. Já nossos preconceitos, valores, ideias, fatos, etc são como nossos ingredientes. Poderia ainda dizer que a capacidade de construir e seguir proposições lógicas é como bater a massa na mão, requer treino para que a massa do bolo fique realmente uniforme.

Logo, percebe-se que quando temos conclusões e respostas diferentes para certas questões, não deveria haver um sentimento de surpresa, necessariamente. Pelo contrário, isso é nada mais que o esperado, já que cada um de nós carrega consigo diferentes experiências, ideias, conhecimentos, valores, formações de vida e institucionais, traumas, gêneros, raças, desejos, etc.

A existência de diferenças mesmo a nível dos princípios é inevitável e precisa ser explicitada se há como objetivo a convergência sobre determinada questão.

Uma vez que tais diferenças sejam explicitadas, talvez fique claro para a leitora que nós poderíamos focar na interseção dos princípios entre as diferentes interlocutoras. Desse conjunto de similaridades, nós poderíamos obter conclusões mais amistosas para todas.

E tudo isso poderia já ser uma grande conquista, mas existe um obstáculo ainda mais fundamental que precisamos levantar. Ocorre que muitos dos princípios, desses inputs que carregamos conosco, contradizem fatos conhecidos. Obviamente, a natureza/realidade não se importa sobre o que gostaríamos de acreditar. Portanto, é preferível que construamos seja o que for intelectualmente sobre alicerces sólidos, sempre que possível, isto é, sobre fatos que tenham uma boa aceitação pelo grupo de seus respectivos especialistas. Esse tipo de atitude evita que fiquemos frustrados tal como ocorre quando estamos profundamente enraizados com qualquer que seja o pensamento ideológico e este acaba se mostrando falso ou não correspondendo à realidade.

Podemos recorrer a alguns exemplos para ilustrar: quando nós ignoramos pesquisas científicas acerca de medicinas alternativas; quando nós partimos do pressuposto que identidade de gênero é puramente uma construção social ou 3https://en.wikipedia.org/wiki/Alternative_medicinehttps://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=647476112096601&id=100005026537222 / https://www.facebook.com/AlexCastroEscritor/posts/1158705534187853?pnref=story puramente uma questão4https://www.youtube.com/watch?v=hnhpyX7ljzA; quando nós partimos enfaticamente de nossos valores pessoais para discutir qual sistema econômico e político é mais estável; quando nós utilizamos apenas nossas evidências anedóticas para defender que a ditadura foi a melhor época do Brasil; até mesmo quando eu dou prioridade à minha formação científica para definir minha régua ao medir ideais e propostas de outras pessoas; entre muitos outros. [1]

Bom, sejamos realistas, com ou sem problemas, continuaremos a debater, conversar, discutir por diversos motivos sobre diferentes questões. Então, dado o que percebemos até agora, há algo que possamos praticar para que sejamos mais efetivas?

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Uma estratégia básica para se esquivar das dificuldades que foram levantadas acima pode ser dada pelos passos a seguir:

1 – checar se o conjunto de princípios dos interlocutores não contradizem fatos claros. Obviamente, essa ‘claridade’  tem que ser propriamente definida e pode ter sua definição mudada para diferentes contextos (por exemplo, não podemos contar com o método científico exclusivamente para falar sobre ética, e tampouco para discutir arte);

2 – estar atento aos princípios que o grupos das interlocutoras está usando e como se contradizem entre si;

3 – assumindo que haja um objetivo comum entre todas de convergência para determinado assunto, é importante manter o foco em construir seja qual for a conclusão, resultado ou pensamento na interseção dos conjuntos dos princípios que cada uma trouxe para a discussão. Afinal, não podemos esperar que todos nós tenhamos os mesmos ingredientes, mas certamente teremos muitos que são iguais e nos permitirão observar como que cada ingrediente afeta nosso bolo.

Com tudo que abordamos até aqui, parece claro que se tal estratégia não for seguida, muito provavelmente a discussão acabará em frustração, desavença, ódio, polarização, pontas soltas, sentimento de tempo perdido, etc, infelizmente.

Por outro lado, uma vez que chegamos até aqui como civilização, também não há motivo para grande preocupação! É claro que fazemos o que podemos para sermos mais concisas e coerentes sempre que possível, mas não é somente de razão que nossa comunicação é feita. Assim, esse refinamento dos nossos diálogos ainda que importante, não tem na sua falta um desastre. As pequenas ou as Grandes conversas, seja através do caos ou da ordem, continuarão a nos guiar pela nossa história seja como for.

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Notas

[1] Esse texto será utilizado como base e referência para outros textos reflexivos, no qual exemplos mais contudentes serão apresentados e elaborados. Eu preferi evitar tal elaboração para manter o texto mais limpo e impedir que a polarização de tais assuntos que todos nós carregamos, de um jeito ou de outro, servisse de pretexto para desmerecer a proposta aqui apresentada.

Notas   [ + ]

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Guilherme Franzmann

Guilherme Franzmann

Doutorando em Física por opção, amante de filosofia por vocação, explorador do mundo desde o mais profundo aspecto do intelecto humano até o mais longínquo cosmos que uma equação pode descrever. No momento reside no Canadá, onde se dedica a estudar Cosmologia, arranhar no violão e escrever suas ideias sobre a vida, universo e tudo mais.

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