Analisando o Diabo: entrevista com a demonologista Tupá Guerra

por Alisson T. Araujo

“Novamente o diabo o levou ao topo de uma montanha, e mostrou a ele todos os reinos do mundo e sua glória; E disse a ele, todas estas coisas eu te dou se prostrado me adorares.” – Mateus 4:8-9

O Budismo prega que a grande batalha diária é fazer o bem, por que o mal já é parte da natureza humana. A próxima pergunta é: onde esta o mal de verdade? Somos seres naturalmente inclinados a cometer maldades, ou somos influenciados? O Mal existe ou é apenas uma desculpa?

A origem do do maligno sempre foi algo de grande mistério para a humanidade. Historicamente, sempre tentamos encontrar justificativas para nossas ações, sobretudo quando estas ações são terríveis. Não raro, sua justificativa vem do “sobrenatural” (como no caso ocorrido em Maceió, em 2009, quando uma mãe matou dois filhos, um de 9 e outro de 11 anos, alegando estar possuída por uma entidade quando cometeu o duplo filicídio).

A citada passagem clássica dos Evangelhos Sinóticos (que inclui os livros Mateus, Marcos e Lucas) acentua o velho embate entre o bem e o mal, além da própria personificação da maldade: o Diabo! Esta figura tão representada ao longo dos anos, nas mais diversas culturas e cultos, em vasta literatura e cinematografia, possui uma área acadêmica de estudo muito recente: a Demonologia.

Para tentarmos entender um pouco mais sobre suas origens e personificações, Alisson Araujo, colunista do PAPO DE PRIMATA, conversou com a historiadora Tupá Guerra, Doutorando em Demonologia pela Universidade de Birmingham (ENG), onde estuda a figura do demônio na História Antiga, analisando os manuscritos do Mar Morto e os textos apócrifos. Ela nos traz informações sobre esta curiosa área de estudo e pesquisa. 

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▪Inicialmente, fale por favor sobre pouco sobre sua formação e carreira, além da sua saída do Brasil e o que lhe fez escolher esta vertente histórica.
Sou formada em História pela Universidade de Brasília (UnB). Foi durante a graduação que comecei a trabalhar com história antiga. A partir daí, aprofundei-me em Roma e Judaísmo e acabei entrando na área de História das Religiões (uma área que eu jamais pensei em trabalhar).  No mestrado (em História Social, também pela UnB), comecei a pesquisar o desenvolvimento de alguns complexos de crenças que foram preservados em fontes literárias. Minha dissertação foi “O medo da primeira noite: uma análise do complexo das interdições núpcias no Livro de Tobias”. No final de 2011, tive a oportunidade de entrar em contato com a minha atual orientadora e fiquei sabendo de um acordo para bolsas de doutorado entre o governo brasileiro e a University of Birmingham. Durante 2012, elaborei o projeto do doutorado com o apoio da orientadora daqui e, em 2013, consegui a aprovação.

▪Como e por que você escolheu o Livro de Tobias?
Foi a partir da sugestão de um colega no grupo de pesquisa que eu participava durante a graduação. Estávamos debatendo o livro “Morfologia do Conto Maravilhoso”, do Vladmir Propp, e interessei-me pela ideia de que o homem corre risco de vida na primeira noite do casamento. Um dos meus colegas lembrou que havia uma narrativa semelhante no Livro de Tobias. Fui pesquisar e não havia quase nada escrito sobre o assunto. Apaixonei-me pelo tema e aprofundei-me nele, fazendo minha monografia de graduação e o mestrado sobre este livro.

No Livro de Tobias, Asmodeus, o “Rei dos Demônios”, mata sete maridos sucessivos de Sarah, a filha de Raquel, em suas noites de núpcias, impedindo a consumação sexual dos casamentos. Neste quadro, pintado pelo pintor neerlandês Jan Steen em 1660, Tobias, prestes a se tornar a próxima vítima, recebe a ajuda do anjo Rafael e juntos vencem o demônio.

▪Em que cultura encontramos os primeiros registros sobre demônios ou seres malignos?
Entramos aí em um tema bem espinhoso. O principal problema é a forma como pesquisadores datam os textos e o que será considerado como o mais antigo. A Mesopotâmia é sempre referência, tanto em desenvolvimento de um sistema complexo de criaturas malignas quanto em antiguidade de relatos. Essas criaturas eram frequentemente uma mistura de animal e humano, sempre ressaltando a questão do grotesco. Neste selo mesopotâmico, por exemplo, é possível ver um grifo lutando contra um ser demoníaco (armado com um punhal, meio homem meio demônio):

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Selo mesopotâmico representando um grifo enfrentando um ser maligno.

Impossível também não lembrar nomes famosos como o demônio assírio Pazuzu (o demônio do filme “O Exorcista), largamente utilizados pelo cinema e cultura pop em geral.

Demônio assírio Pazuzu (Museu do Louvre)

Demônio assírio Pazuzu (Museu do Louvre).

Importante ressaltar que os estudos sobre criaturas malignas estão em seu início. Eu não me surpreenderia se em alguns anos novas perspectivas fossem adicionadas ao que já sabemos!

▪Como a senhora já disse em entrevistas, existem muito mais estudos e fontes teóricas e pesquisadores na área de angelologia (a área de estudo dos anjos) do que dos seu antagonistas, os demônios. A senhora saberia dizer o porquê disso? Será por ser um tema menos polêmico, ou seria nosso medo natural?
Aqui vou estar apenas especulando. Não acho que isto esta relacionado a uma questão de medo, até porquê o maligno e o mal são assuntos que atraem muita atenção. Imagino que o problema esteja relacionado ao momento histórico que se vive. Cada momento histórico cria perguntas diferentes.

Com o que chamamos popularmente de demonologia, existe um certo interesse circular. Em geral (não é uma regra), momentos de grandes crises acabam aumentando a atenção para o problema do mal. Considerado que “pesquisas acadêmicas” são um fenômeno histórico relativamente novo (de uns 200 anos pra cá), a falta de pesquisas em demônios acaba sendo um fato da nossa época. Mas isto está mudando: demônios estão cada vez mais chamando a atenção!

▪Como a personificação do demônio aparece em denominações religiosas como o Islã, o Budismo, o Judaísmo ou o Hinduísmo?
Essa pergunta é interessante, mas impossível de ser respondida. A personificação de um ser maligno, feminino ou masculino, varia imensamente mesmo dentro de cada religião. Vertentes distintas dentro de cada uma terão visões completamente diferentes. A ideia de que um ser puramente maligno não representa a realidade destas religiões citadas. Claro que há seres malignos representados nessas religiões, mas é difícil traçar uma figura única que represente cada uma delas.

O próprio termo “demônio” é bem problemático, porque representa um tipo especifico de ser, influenciado pelo pensamento grego e pelo Novo Testamento. Então, não dá pra aplicar em outros contextos. Ao mesmo tempo, a crença em criaturas malignas que podem influenciar de forma negativa a humanidade parece já estar presente em outras culturas.

"Papa Silvestre II e o Diabo": ilustração alemã medieval.

“Papa Silvestre II e o Diabo”: ilustração alemã medieval.

▪O professor Karnal, em sua palestra “Temor e Tremor”, falou sobre como as religiões usam o medo como uma forte ferramenta publicitária, dizendo que o medo da ação do demônio é muito mais eficiente do que a doçura da presença de Deus. Você concorda? Seria o Demônio não fosse o grande “bode expiatório” de tudo, fruto da característica humana de sempre buscar culpados fora de si mesmos?
A religião certamente se utiliza do medo (bem como a política). O medo é uma ferramenta de controle bastante fácil de ser utilizada. Mas acho importante não pintarmos a religião como “o grande mal manipulador”. A experiência religiosa é muito mais complexa do que apenas controle e acabamos excluindo a autenticidade dessa experiência quando reduzimos a religião à apenas manipulação. Dito isso, a existência do mal e uma questão que intriga a humanidade a muito tempo…

O “demônio” católico serve um pouco como o “bode expiatório”, mas ele também tem um papel ambíguo. As ações do demônio são permitidas por Deus? Se não, quer dizer então que Deus não tem poder sobre tudo? O problema do demônio, portanto, é muito mais complexo que simplesmente uma forma de não assumir responsabilidades – até porque, em muitos casos, acredita-se que o demônio só lhe fará mal caso você aceite fazer um pacto com ele, por exemplo. Neste caso, a culpa em si acaba sendo também da pessoa.

▪Como a figura do demônio influencia o Cristianismo atual?
A figura do demônio é muito mais central no Cristianismo do que jamais foi no Judaísmo e isso influencia muito a forma de como essa figura exerce tanto fascínio no Brasil. Para muitos pesquisadores, não se pode falar em demônio num período anterior ao Cristianismo. O Antigo Testamente, em suas breves menções que podem ser interpretadas como algo similar ao demônio, não tem essa figura maligna como central. Nele, a ideia mais tradicional do mal estaria muito mais relacionada a uma punição para aqueles que não seguem o caminho de Deus, e não a um ser exterior.

Muitos especulam que o contato com a Mesopotâmia tornou a ideia de um ser maligno exterior mais comum no Judaísmo e, consequentemente, mais importante no Cristianismo. É curioso perceber algumas similaridades entre as representações de criaturas malignas na Mesopotâmia e aquelas da cristandade na Idade Media, por exemplo. Além do anjo caído que, em geral, comanda o inferno, demônios costumam ser uma mistura grotesca de animal e humano. Mas vale só lembrar que apenas similaridades não significam necessariamente uma relação.

Claro que, na Idade Média, havia teóricos estudando seres malignos tanto no Judaísmo quanto no Cristianismo, o que parece provar de que a crença em seres malignos existia em ambas as religiões. Mas, como tudo em História, nada é só sim ou só não. Nada é tão claro!

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“Milhões de criaturas espirituais andam na Terra invisíveis, tanto quando estamos acordados, como quando dormimos.”
Jon Milton

Representação do Diabo feita em 1485  pelo pintor alemão author Hans Memling. Na faixa, os dizeres: "No Inferno, não há rendenção!".

Representação do Diabo feita em 1485 pelo pintor alemão author Hans Memling. Na faixa, os dizeres: “No Inferno, não há rendenção!”.

Alisson T. Araujo

Alisson T. Araujo

Gaúcho dos que gosta de um chimarrão bem amargo, acadêmico do curso de História e pesquisador, técnico em radiologia, músico, guitarrista e um amante da libidinosa Ciência e Filosofia. Seu foco em história é povo, cultura e religião, com ênfase em monoteísmos, suas influencias, origens e a eterna dúvida sobre sua verdadeira função social. Fã de cinema, música, séries, HQ’s e cultura pop.

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23 respostas

  1. Taí, não sabia que havia especialistas em demônios, como ateu agora me sinto um inútil, rs…

  2. Dione Elias Jung disse:

    Excelente trabalho! Já acompanhei alguns trabalhos da Tupá. Ela mostra de maneira histórica qual a relação de cada religião, de cada época, com demônios x anjos. Cabe mais à interpretação de cada um do que realmente é registrado/acontecido.

  3. boa leitura Vitória Morais

  4. Eu não acho que a figura do demônio tenha sua origem no credo cristão. No zoroastrismo, religião persa que surgiu milênios antes de Cristo, já se falava em “Arimã”, uma representação personificada do mal.

  5. Woz Di disse:

    A imagem do Diabo atual com chifres é um deus pagão não lembro se é da colheita ou fertilidade não tenho certeza. na verdade eles foram queimando e enforcando todas essas religiões que apreciam a natureza.

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