Humanismo

Ditadura humanista

O preconceito em torno tanto do humor quanto da opinião alheia no dia a dia não é novo, e não é possível dizer se o mesmo hoje é proporcionalmente maior ou pior que antigamente dado que, além da limitação de registros para comparação, o próprio papel social das lutas das minorias e oprimidos era limitadíssimo, e muito do qual se luta hoje parecia não fazer sentido para a maioria (não duvidemos que ainda não o faça hoje).

Mas há, assim, um ponto importante a ser levado em consideração por aqueles que procuram lutar pelo humanismo e mostrar o quão assombroso são determinadas declarações, discursos ou ações: como mostrar às pessoas o quanto seu pensamento, suas inculcações, suas ‘teorias’ recheadas de mesmice e senso comum (além é claro dos claros erros interpretativos) perpetuam ideias agressivas e discursos de ódio, sem que isto lhes pareça uma “ditadura-disto-ou-daquilo”?

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Muitas pessoas que possuem um determinado senso de justiça que as impede de ver despreocupadamente determinadas ações racistas, machistas, homofóbicas e afins ainda, possuem em sua criação ou em sua cultura determinadas concepções que não são isentas de discriminações. E estas pessoas muito comumente se encontram na defensiva quando colocadas em frente a isto. Como explicar-lhes, então, que seu discurso, sua atitude ou seu pensamento ainda é discriminatório? E como dizer isto a pessoas que pouco se apegam ao humanismo? Como fazê-los sem que nós mesmo, humanistas, não acabemos sendo, de alguma forma, ditatoriais?

Uma palavra muito utilizada é a palavra para tipificar uma conduta racional e humanista é tolerância, e seu avesso, intolerância. Mas devemos nos atentar ao fato que, por sermos tolerantes, queremos dizer que aceitamos algo, como se a vivência ou até mesmo a sobrevivência de outra pessoa dependesse de nós admitirmos o que ela é, o que ela pensa e o que ela quer. É errado imaginar que nossa aceitação obrigatoriamente tenha alguma relevância na vida de outras pessoas, visto que ela não a vive por nós, mas para ela mesma. Não temos que apenas tolerá-la, temos que entendê-la e abraçar sua causa humanista. Estas ações são para nós mesmos, não para elas. Este é o sentido de se compreender os detalhes dos preconceitos arraigados em nós por todas nossas vidas.

Por mais que a obviedade de posturas que apelem ao grotesco das relações humanas de discriminação e preconceito salte aos olhos e ouvidos (mesmo com uma mudança paulatina de cultura implementada via imprensa, governos e assentimentos aos pedidos seculares de socorro por parte de oprimidos), esta obviedade em muitos não se faz presente em vista da cultura de pregação milenar que, em seu método, pouco mudou desde que decidimos utilizar nossa primeira ferramenta, moldando as sociedades de acordo com as vontades de quem está no poder e nele quer manter-se, tirando o máximo proveito possível. Para algo ser óbvio, faz-se necessária uma desconstrução lenta e dolorosa, que se não foi feita totalmente por nós mesmos, foi feita em partes por aqueles que nos ensinaram, nos delegaram, nos enriqueceram em nossa formação (inicialmente clara como tal, depois como algo próximo de uma ‘opção de se aprender’). E esta mesma desconstrução não é linear, nem tampouco gradual. Ela ocorre ponto a ponto, por ocorrências específicas que dependem também de nossa predisposição para tanto. E é a partir disto que percebemos, por exemplo, ateus sendo machistas, homossexuais sendo racistas, negros sendo classicistas, e assim por diante.

ba3445f45f9f68fd1eb9f3f80c55f056Nem todos (talvez poucos, mas prefiro não crer nisto) se veem na condição de desconstrução de seus estereótipos que desde a mais tenra infância perduram. Muitos veem como ‘frescura’ estas mudanças, usando como argumento o fato de que ‘antigamente não era assim’ (obviamente isto não é argumento). Outros dizem que as pessoas devem ter sua liberdade de opinião, e se apegam a isto como um salva-vidas para não afundarem no mar de suas consciências. Há ainda os que alegam que mudanças drásticas nos lidos sociais reprimiriam aqueles que não fazem parte dos grupos oprimidos, esquecendo estes que os oprimidos vivem isto desde seu nascimento (ou seja, quem defende este argumento sabe que a opressão é ruim e não a quer para si, mas não vê problema em outros a sofrerem, ou não acha convenientes para si determinadas ações contra esta opressão).

Infelizmente, este é um dilema sem uma resposta satisfatória. Temos caminhado legal e legitimamente para consolidar as rupturas com sistemas opressores e para recuperar o tempo perdido de ações e culturas nefastas. Laicidade estatal, cotas, leis contra homofobia, Lei Maria da Penha, Estatuto da Criança e do Adolescente são alguns destes exemplos, mas ao mesmo tempo que este caminho vem sendo trilhado, temos espasmos demoníacos de propostas como ‘cura gay’, redução da maioridade penal ou penalização do aborto para sujar de sangue uma estrada ainda não bem pavimentada. A mudança cultural urge, mas esta é longa, penosa e incerta (não temos como saber ao certo que cultura derivará da atual). E isto nos traz ao ponto de que temos que mostrar, como a influência científica, a historicidade humana, a empatia individual e social indicam o porquê de determinadas ações fazerem mal, sendo incompatíveis com a humanidade como um todo.

Relativizar, em alguns momentos, pode ser perigoso, uma vez que esta simplificação pode ser o ponto final entre a liberdade ou não de alguém!

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Henrique Dal Bo Campanilli

Henrique Dal Bo Campanilli

Henrique é poeta, colunista, aprendiz de cachaceiro e de gaita; torce pela humanidade, apesar desta muitas vezes não lhe dar motivos para tal.

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