Ch de Dvidas

O polêmico Museu do Amanhã

Nos últimos dias, um dos temas mais discutidos nas redes sociais foi o recém-inaugurado Museu do Amanhã, na Praça Mauá, Rio de Janeiro. Lá ainda não fui. Esperarei o inverno, quando ele terá deixado de ser uma novidade e as filas para conhecê-lo serão menos, como menor será o meu desconforto, que evito de todas as maneiras sair de casa durante a estação que mais odeio: o verão.

Reclamam os críticos do atual governo que não faz sentido gastar tanto dinheiro quando os hospitais do Rio estão em uma situação lamentável. Há quem diga que ele custou muito mais que a polêmica Cidade da Música, obra do ex-prefeito César Maia. Não estou a par dessas cifras e, por isso, não opinarei sobre elas. Quanto ao dinheiro gasto para construir esse museu, creio que o que cabe perguntar é: quanto dinheiro era realmente necessário para executar esse projeto e quanto foi realmente gasto? Claro que esse projeto seria necessariamente caro. Mas só acho justo criticá-lo se for comprovado superfaturamento na obra. Como não estou a par dos números, darei o benefício da dúvida.

praca-maua-museu-amanhaPara início de conversa, o próprio nome, “Museu do Amanhã”, ataca o senso comum sobre museus. As pessoas acham que museus são coleções de coisas velhas e esse foi construído para pensar o futuro junto com os visitantes. A própria arquitetura do museu é uma obra de arte. Não é um presídio adaptado como o Museu da Inconfidência em Ouro Preto, ou um palácio adaptado como o Museu Imperial de Petrópolis. A tecnologia é o grande atrativo do Museu. Ao invés de fósseis, fotografias, quadros e antiguidades, a informática e o audiovisual prendem a atenção dos visitantes. Vejo no site do Museu que a exposição “cosmos” apresenta um vídeo em 360º sobre a origem do Universo. Essa experiência pode causar um grande impacto em crianças e adolescentes que ouvem gente desinformada repetir a todo momento que os cientistas ateus dizem que o mundo surgiu de uma explosão e que explosão não constrói, só destrói. – sim, o senso comum que eu escuto na periferia é de que os cientistas são loucos que acham que de uma explosão surgiu um planeta cheio de plantas e bichos.

 

No dia 26/12, segundo leio na página do Museu no Facebook, houve uma oficina no LAA (Laboratório de Atividades do Amanhã) ensinando a arte de produzir cervejas artesanais. Ou seja, esse Museu promoverá atividades práticas para as pessoas compreenderem processos naturais tais como a fermentação da cerveja. Conhecimentos que têm uma utilidade imediata atraem público.

Quero que vocês pensem uma coisa: nos anos 80, quando não havia TV a cabo nem Internet, a Rede Globo apresentou nas manhãs de sábado a série original “Cosmos”, de Carl Sagan. Hoje, a programação da TV aberta está cada vez pior. Grande parte da programação diária é ocupada por fariseus que cometem crimes de estelionato e charlatanismo em nome de Deus, explorando a miséria econômica e intelectual de nossa população, com a bênção do poder público, que não move uma palha contra essa imoralidade no espectro que é propriedade do Estado e por ele concedido às emissoras de rádio e TV. A nova série “Cosmos” só foi assistida por quem pode pagar por TV a cabo ou é assinante da Netflix. Em cada esquina deste país, religiosos distribuem revistas que negam a Ciência. Pessoas leem falácias contra a teoria da evolução sem terem a menor ideia do que ela seja realmente. Quem estuda Literatura facilmente perceberá um fenômeno que aconteceu em vários países e em várias línguas ao mesmo tempo: quando o homem pôs os pés na Lua, vários poetas criticaram os esforços da NASA dizendo que não fazia sentido ir até a Lua sem antes resolver os problemas da Terra. Mas os esforços dos cientistas em conhecer o Cosmos se refletiram em conhecimento e progresso para a humanidade. Não é culpa deles se esse progresso não chegou às mãos de todos.

O que mais desejo é que todas as crianças e adolescentes do estado do Rio de Janeiro possam visitar o Museu do Amanhã. As crianças e adolescentes de hoje serão os eleitores de amanhã e eu desejo que essas pessoas, com títulos eleitorais nas mãos, se preocupem menos com a vida íntima das pessoas (porque foi esse discurso moralista de defesa da família tradicional que elegeu parasitas como Eduardo Cunha) e mais com a promoção de uma matriz energética limpa e sustentável. Cada criança que desistir das superstições, que parar de esperar o prometido arrebatamento como solução para todos os males e passar a se preocupar com a preservação do meio ambiente, quanto valerá a mudança de atitude de cada criança?

Sou professor da rede pública estadual e vejo as crianças perdidas na escuridão do fundamentalismo. Todos os anos tento levá-las a museus para quebrar a rotina nauseante da sala de aula e mostrar-lhes as possibilidades que o estudo, a Ciência, as Artes podem abrir para elas. Raramente as direções das escolas me conseguem verbas para isso. E se faltam verbas para a saúde pública e para as escolas, não culpemos a construção do lindo Museu do Amanhã. Culpemos as isenções fiscais concedidas à Companhia Siderúrgica do Atlântico, um consórcio da Vale com a Tiksen-Krupp que veio fazer no Rio de Janeiro o que as leis ambientais da Alemanha não permitem fazer lá. Recomendo a quem leu este artigo o documentário “Desenvolvimento a Ferro e Fogo”, narrado por Wagner Moura, disponível no Youtube.

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Edson Amaro De Souza

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro perdeu toda e qualquer esperança de ser normal. Paga suas contas lecionando Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, delicia-se praticando teatro de vez em quando, comete a imprudência de escrever versos, atreve-se a praticar a arte da tradução e, como se não bastasse, torce pelo Vasco da Gama. Gosta de tomar chá e semear dúvidas.

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