Por Detrs da F

O que é o “pensamento crítico” e como realmente incentivá-lo?

Saiba por que a grande maioria de páginas que se propõe a incentivar este pensamento está fazendo de maneira equivocada!

Para iniciar este texto sobre pensamento crítico desenvolvi uma breve analogia a fim de gerar compreensão sobre a sua importância e de que forma é eficaz gerar conteúdos que os influenciem…

Já se sabe que a noção de moral (o que é certo ou errado) não é uma característica inata, portanto deve ser aprendida. Quando uma criança está em fase de crescimento os adultos a educam e o meio em que vive influencia seu desenvolvimento moral.

Agora imagine uma criança que nasceu em uma tribo no meio da Amazônia onde seja uma tradição matar homens brancos que se aproximam da comunidade. Sem nunca dar chance a estes homens de se explicarem, decidem sempre matá-los. A tradição tornou-se comum desde que os primeiros indígenas foram expulsos por homens brancos de suas próprias terras, inclusive sendo assassinados aqueles que se recusavam a abandonar o lar. Esta criança então cresce e desenvolve uma noção de moralidade em que considera correto matar homens brancos. E como podemos modificar nela essa noção moral arraigada à sua personalidade já formada?

Somente através do incentivo ao pensamento crítico! Entenderemos o porquê mais adiante.

problemes

Então como podemos falar de religião, política, leis e outros assuntos incentivando as pessoas a questionarem suas próprias convicções sobre determinado assunto?

Bem, primeiramente darei minha impressão sobre a definição baseada na semântica destas palavras: pensamento crítico é a capacidade de absorver informações e trazer à tona todas as perguntas possíveis sobre o assunto em questão, deixando de lado suas convicções para se pensar em todas as possibilidades.

Voltemos ao exemplo do índio que mata homens brancos. Suas convicções, moldadas desde sua infância por pessoas que ele ama, são de que estes homens são cruéis e sem escrúpulos. Suponhamos que em determinado dia este índio, curioso sobre a vida fora de sua tribo, afasta-se da floresta e encontra ao espiar entre as árvores uma família guardando bagagens no porta-malas de um carro. Ele então percebe que o homem branco beija sua esposa na testa e abraça seus filhos antes de entrar no veículo. O índio conhece o gesto do beijo e do abraço como afeto e então, a partir daquele momento, começa uma reflexão que durarão dias sobre as semelhanças de sua família com aqueles “brancos”. Ele indaga – “por que estes homens são tão maus se sentem afeto como nós sentimos?”. Neste caso, uma “semente” foi plantada no cérebro do jovem índio, que pode preferir não contar a ninguém de sua tribo sobre o ocorrido e por algumas vezes volta a observar a vida fora das florestas. Cada vez que o índio retorna de sua expedição para as fronteiras da floresta, uma nova dúvida é gerada e a curiosidade em se aproximar dos homens brancos fica maior.

Há nas redes sociais diversas páginas que visam incentivar o pensamento crítico, fazendo com que as pessoas questionem suas crenças, mas a maioria delas faz de forma errada. Tudo porque não conhecem um dos vieses básicos arraigados ao cérebro humano. Quando postamos textos, vídeos ou matérias é imprescindível que estes sejam imparciais e neutros. Em outras palavras, o conteúdo a ser divulgado não deveria conter de maneira alguma a opinião de quem escreve, mesmo que de forma subjetiva. Por exemplo, se eu for escrever um texto sobre política que visa demonstrar possibilidades que defendam ambos os lados, mas na penúltima linha do texto eu deixo subentendido que sou “petista”, comunista, socialista, capitalista ou qualquer coisa do tipo, então um viés natural de nosso cérebro, responsável em manter-nos em linha de conforto, muda todo o resultado do conteúdo, fazendo com que o texto seja invalidado, ignorado, rejeitado.

Quem nunca assistiu a um jogo entre Corinthians e Palmeiras no qual o narrador aparentou com suas atitudes, ser um torcedor de um dos times e isto logo fez com que o telespectador reclamasse e até mudasse de canal?

Quando estamos diante de qualquer situação o nosso cérebro capta milhões de informações, filtra-os e envia a nós um pensamento, composto ou não por uma sensação. Costumo fazer uma suposição para que fique mais claro em que ponto precisamos chegar para ocasionar mudanças eficazes sobre nossas convicções: perceba que você não precisa pensar para pensar, certo? O pensamento que nomearei de “primário” é desenvolvido a partir do resultado das informações captadas pelo cérebro e filtradas para serem enviadas ao consciente. Este pensamento pode conter informações que você não queira falar, algumas vezes até por educação. Você já deve ter ouvido a expressão que “determinada pessoa não pensa para falar”, ou que ela “diz o que vem a cabeça”. O pensamento primário é formado sem influência consciente. Não se decide o que se quer pensar, apenas pensa-se. É um resultado de fatores externos (o que se está vendo) com fatores internos (o que se tem memória/ convicção).

Somente após nos aprofundarmos em uma reflexão, tomamos consciência do que estamos pensando e do porquê de pensarmos daquela forma. O que chamamos de pensamento crítico é uma análise filosófica dos fatos e nossa camada superficial de pensamentos (poluída pelas nossas convicções). Assim, é possível compreender que o cérebro de uma pessoa racista possui um “pensamento primário” saturado de convicções de rejeição, que só pode ser modificado com fatores externos (educação, análise de estudos que demonstram igualdade comportamental ou até mesmo um filme ou livro que desperte a percepção de que negros e brancos são iguais) que levem ao questionamento destas convicções.

Faz algum tempo que escrevi meu primeiro livro e atualmente questiono diversas afirmações que apresentei nele. Isso não me causa vergonha, somente demonstra que quando somos pensadores críticos estamos sempre dispostos a evoluir nossos conhecimentos, deixando de lado nossas certezas absolutas.

“Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”
Sócrates

A arte é uma das formas mais bonitas de incentivar a auto reflexão e, portanto, o pensamento crítico. Lembro-me de alguns anos atrás quando era preconceituoso sobre a “opção” sexual. Assisti a um filme que vinha contra minhas convicções e eu simplesmente não “tampei meus olhos”. Fui a busca de mais informação, estudos científicos e filosofei questionando por qual motivo alguém escolheria ser alvo de preconceitos e até de violência física. Veio até mim indagações como – quando eu escolhi ser hetero? E percebi que não era uma escolha. Eu não podia simplesmente optar por sentir atração pelo sexo que não me atraia. Porém, sempre que via alguma cena que antes me fazia ter raiva eu percebia meu pensamento gerando novamente uma rejeição, então refletia sobre meu pensamento primário e criticava a minha própria ideia. Assim moldamos nossas convicções, analisando todas as possibilidades.

Pensar criticamente é filosofar sobre como pensamos, nos observar, e então tornar nosso pensamento moralmente correto.

Se você está lendo a este texto é provável que seja um “livre-pensador”, mas o conteúdo que você cria, tem sido aceitável e objetivo na influência do pensamento crítico?

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Lucas Belarmino

Lucas Belarmino

Um cético apaixonado por explicar tudo o que o senso comum apela ao sobrenatural. Autodidata, músico, escritor do livro “Racional: A visão da descrença”, não suporta não ter sobre o que estudar. Em suas “horas vagas”, é gerente. Ama neurociência e é fã de cinema e séries.

Veja tambÉm...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

PAPO DE PRIMATA precisa ter certeza de que você não é um robô! Por favor, responda à pergunta abaixo: * Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>