Ch de Dvidas

As igrejas protestantes e a ditadura militar

Dia desses estive na Biblioteca Pública de Niterói e peguei emprestado um livro interessantíssimo: “Memórias Ecumênicas Protestantes – Os protestantes e a Ditadura: Colaboração e Resistência”, organizado por Zwinglio M. Dias e publicado pela KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, um projeto que a referida editora apresentou à IV Chamada Pública do Projeto Marcas da Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

Livro(1)O livro apresenta vários depoimentos e entrevistas de membros de igrejas protestantes que resistiram à ditadura, vários deles sendo delatados por lideranças das igrejas das quais faziam parte. De leitura imprescindível é o prólogo, escrito pelo teólogo e doutor em Sociologia da Religião José Bittencourt Filho, que traça a história do protestantismo no Brasil, desde o seu início até o momento em que majoritariamente se entregou à “sociedade do espetáculo”, em que promessas de milagres são vendidos em rede nacional de rádio e TV e a bancada “evangélica” (Bithencourt coloca o termo entre aspas porque não reconhece nesses parlamentares as virtudes que considera evangélicas) que cresce ameaçadoramente no Congresso no intuito de impor seus dogmas à sociedade. Palavras de Bithencourt:
“Considerando que os seres humanos abominam a incerteza e a insegurança no ambiente religioso diante do risco desagregador da dúvida responde-se com a afirmação da ortodoxia disponível. Neste caso apela-se tanto para o isolamento, a chamada estratégia de “gueto”; quanto se adota a estratégia de “cruzada”, concebida aqui como o caminho da conquista da sociedade por uma proposta religiosa particular. Esta parece ser a alternativa da chamada “bancada evangélica” no Congresso Nacional. Por essa configuração é que todo fundamentalismo comporta elementos de violência potencial, real e simbólica. Com efeito, todo fundamentalismo facilmente induz os fiéis ao ódio, ao rancor e à hostilidade. Por conseguinte, o fundamentalismo atual deve ser analisado contra o pano de fundo do surgimento da sociedade pós-tradicional, pois se trata de uma resultante do confinamento em que se encontram as tradições religiosas. Para os fundamentalistas é intolerável o esvaziamento dos seus valores tradicionais e como estratégia de resistência reforçam os laços de pertença e solidariedade das comunidades que estão sob sua influência; assim como rejeitam sistemática e enfaticamente vetores da lógica moderna tais como pluralismo, hermenêutica, relativismo, evolução e correlatos.” (pág. 20).

A história das igrejas evangélicas no Brasil anterior a 1964 pode ser resumida num trecho do depoimento de Paulo Ayres Matos, bispo da Igreja Metodista, na página 121: “(…) A gente tem que se lembrar do seguinte: toda a formação de evangélicos no Brasil sejam presbiterianos, metodistas e batistas, essas três Igrejas, na sua maioria os missionários vieram do sul dos Estados Unidos. Na bagagem doutrinária missionária estava o conceito de Igreja Espiritual, que é um conceito que foi formulado pelos protestantes do sul dos Estado Unidos após a derrota na Guerra Civil Norte Americana entre 1861 e 1865. Essa ideia da igreja espiritual dizia que a igreja evangélica não tem nada a ver com a política. Evangélico não se mete em política. Tanto que quando Guaracy Silveira, um pastor metodista, foi eleito o primeiro deputado evangélico do Brasil, eleito em São Paulo após a Revolução de 1932, ele teve que se afastar do ministério pastoral, porque não se pode misturar política com religião. Quando na década de 50, talvez até impulsionado pelo movimento Ecumênico, começa a haver a discussão sobre a responsabilidade social dos evangélicos, esse setor que defendia a separação, a distância da política, vai mostrar a sua verdadeira face. Ao dizer que não se envolvia com política, de fato estava apoiando o status quo. E começam a perceber que as pessoas que estão envolvidas com as discussões do Setor de Responsabilidade Social estão questionando o sistema de poder. Então, em 1964 quando acontece o golpe militar um setor das Igrejas que era politicamente conservador apoiando o status quo, mostra sua verdadeira face.”

Anivaldo Padilha, leigo metodista, coordenador do grupo de trabalho sobre as relações das igrejas com a ditadura, da Comissão Nacional da Verdade, conta que foi denunciado por um dos líderes de sua igreja. “(…) No início dos interrogatórios, sob tortura, eles supunham que a gente era comunista e membros de alguma organização clandestina, o que a gente negava. Houve um momento, acho que no segundo dia de interrogatório, quando um dos torturadores, revoltado com a minha recusa em cooperar, gritou: “você quer que eu acredite em você ou no pastor que afirma que você é comunista?” Naquele momento descobri que tinha sido delatado por um pastor. Aí ficou muito clara essa estratégia usada pelos setores conservadores, não na Igreja Metodista, mas nas outras Igrejas também, de apelar para os serviços de repressão da ditadura para resolver problemas internos da Igreja.” Pág. 67

Lendo esse livro, não há surpresas. Tanto que vemos que a bancada dita “evangélica” se alia a quem se beneficiou da ditadura militar e ainda a defende, não é verdade?

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Edson Amaro De Souza

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro perdeu toda e qualquer esperança de ser normal. Paga suas contas lecionando Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, delicia-se praticando teatro de vez em quando, comete a imprudência de escrever versos, atreve-se a praticar a arte da tradução e, como se não bastasse, torce pelo Vasco da Gama. Gosta de tomar chá e semear dúvidas.

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1 resposta

  1. Stephany disse:

    Cara só essa tese pequena sobre o que relata no livro já me ajudou bastante.

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