Ch de Dvidas

Brasil Medieval

Este é o primeiro texto que escrevo para o site Papo de Primata, e começo dizendo que muito me honra o convite que me foi feito por David Ayrolla, aprendiz de Carl Sagan. Se não tem no Brasil tanta notoriedade quanto o grande cientista americano é tão só porque sua brilhante e educativa atuação fica restrita à Internet, pois as concessionárias de rádio e TV, ao invés de cumprirem o que dispõe a Constituição Federal no artigo 221, preferem promover a ignorância e depois se dizem preocupadas com as crianças às quais elas deveriam informar tendo os meios para isso, suprindo assim, muitas vezes, as carências de cidades sem museus, teatros, cinemas e bibliotecas públicas.

Por falar em TV, não sei de que parte do Brasil você lê este texto, mas, caso conheça o Rio de Janeiro, certamente deve ter passado pelo Largo da Carioca. Todos os dias, postam-se ali repórteres para fazerem perguntas aos passantes sobre os mais diversos assuntos, desde a tabela do campeonato brasileiro até o preço dos legumes no mercado. Eu nunca tive a sorte de, passando por lá, ser abordado por um repórter, mas, quase sempre quando passo, vejo repetir-se o mesmo vergonhoso espetáculo: as catilinárias dos profetas tupiniquins.

O Rio de Janeiro é uma cidade turística e as belas praias da Zona Sul são uma das poucas imagens que o Brasil exporta pois o audiovisual brasileiro não dá conta nem mesmo de mostrar o Brasil para os brasileiros: quando foi a última vez que nós, que não moramos no Maranhão, vimos a arte da azulejaria que adorna o centro histórico de São Luís na TV ou no cinema? E é em busca dessas belezas naturais que os turistas estrangeiros vêm, pouco sabendo de nossa cultura. Quando um gringo me pede alguma informação, eu logo arrumo um jeito de lhe sugerir que visite outras cidades.

Fico pensando no que outros países têm a oferecer a seus visitantes. A Itália, por exemplo, tem ruínas da época do Império Romano e até anteriores a ele. A França tem monumentos da época medieval, como a tão famosa Catedral de Notre Dame. E o Brasil mal dá conta de cuidar de seus 515 anos de História: exemplo lamentável disso é a Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Ouro Preto, dentro da qual jaz o Aleijadinho, e está fechada à visitação, ameaçando desabar.

Mas se o Brasil não tem monumentos medievais a ostentar, preenche essa lacuna apresentando mentes medievais a céu aberto: é comum ver sob o escaldante sol carioca, profetas de catástrofes sem data marcada gritando contra a tradição das imagens católicas, os festejos de carnaval, o amor livre e tantas coisas que dão colorido ao nosso cotidiano.

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Intolerância religiosa no Largo da Carioca (RJ): cartão postal às avessas.

 

Não é exagero nem implicância da minha parte dizer que percebo em suas vozes uma certa satisfação quando acontecem grandes catástrofes: um terremoto no Nepal, uma epidemia na África, a queda de um avião no Atlântico, um atentado terrorista na Europa são apresentados em praça pública como sintomas de males maiores que se avizinham sem data marcada. E de nada adianta quando os âncoras dos telejornais explicam que os terremotos são causados pela movimentação de placas tectônicas que nada sabem das crenças religiosas ou da vida sexual dos ínfimos seres humanos que habitam a superfície.

Se tão pouco se faz para erradicar a ignorância do Brasil talvez seja porque ela tenha se tornado uma atração turística a mais!

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Edson Amaro De Souza

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro perdeu toda e qualquer esperança de ser normal. Paga suas contas lecionando Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, delicia-se praticando teatro de vez em quando, comete a imprudência de escrever versos, atreve-se a praticar a arte da tradução e, como se não bastasse, torce pelo Vasco da Gama. Gosta de tomar chá e semear dúvidas.

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10 respostas

  1. A pergunta que não quer calar: “ei, moço, e isso que tá no seu piquete, te interessa “pessoalmente” de que forma?”
    (As respostas, a psicologia tem… e de sobra!)

  2. Mario Bezerra disse:

    Mas gent, não sabia que hétero é imune à aids o.O

  3. Leo Borlido disse:

    Eu não sou gay, mas s eu vejo uma merda dessas na rua, eu entro de voadora. E não me interessa se violência não resolve, pelo menos ficarei satisfeito.

    • Entendo e sinto tb essa revolta, mas reakmente, a voadora não seria uma coisa sensata. Mas ô vontade que dá … Fica mesmo como nasa cenas de “Scrubs” que a cena se passava, e depois mostravam que o cara só tava imaginando ahahahahahaa

  4. Edson, sua escrita conserva o lirismo mesmo em assuntos delicados. Adoro isso em seu estilo! Um grande abraço!

  5. Não sabia que aids era heterofóbica…

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