Dialtica

Dawkins e os fetos com síndrome de Down

Dawkins errou feio ao dizer que considera “imoral” que mulheres deem a luz quando seus fetos são portadores de síndrome de Down.

Incorreu, na minha opinião, em dois erros…

O primeiro, bastante óbvio, foi o de considerar que portadores da síndrome não possam ter uma vida feliz e produtiva, colocando as dificuldades que eles (e seus familiares) precisam enfrentar como fatores tão limitantes que seria crueldade trazer ao mundo uma criança destinada a sofrer tanto.

Ora, todos sabemos o quanto isto não é verdade. Portadores de síndrome de Down tem algumas limitações bastante significativas, sem dúvida, mas também os tem deficientes físicos, visuais, auditivos, pessoas com paralisia cerebral e indivíduos com necessidades especiais em geral. E, tal como muitas pessoas destes grupos, quem tem Down pode ter uma vida bastante satisfatória, adaptando seu modo de vida de forma a conviver com estas limitações e não apenas ser feliz, como também trazer felicidade a todos ao seu redor.

Aliás, talvez o difícil mesmo seja encontrar alguém sem limitação alguma, de nenhuma magnitude ou natureza. E convém também observar que indivíduos que aparentemente não têm nenhuma destas dificuldades podem ter vidas menos felizes e plenas que qualquer pessoa com Down.

Um feto com Down não deveria ser considerado como um feto anencéfalo, cuja capacidade de sobrevida longa é nula. Indivíduos com Down podem estudar, trabalhar, se casar e até ter filhos (neste caso, apenas as mulheres). Podem amar e serem amados!

E aí está o segundo erro de Dawkins: não há nem um bom motivo para achar que uma mulher gestando um feto com Down tem uma obrigação (ou um direito) maior de abortar que qualquer outra mulher grávida. Este é uma decisão que cabe apenas a ela (em medida menor, ao pai, mas à mãe cabe a palavra final). Ainda que sejamos a favor do direito ao aborto (ou não – na verdade a lógica funciona para as duas correntes ideológicas), não é ele quem deve fazer esse juízo de valor.

Com isso, Dawkins acaba fazendo um desserviço para quem é a favor de dar aos pais o direito de interromper uma gravidez indesejada, uma vez que mistura a este assunto, que já é delicado e tema de discussões apaixonadas, o preconceito com quem tem síndrome de Down.

E, ao definir como “imoral” uma decisão que é de cunho absolutamente pessoal e alheio a ele (que não viola o direito de ninguém, afetando apenas aos pais e ao feto), ele acaba se assemelhando aos líderes religiosos fundamentalistas que tanto combate…

Bola fora, Mr. Dawkins…

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


David Ayrolla

David Ayrolla

David Ayrolla é carioca, mas tem dúvidas se nasceu no planeta certo. Cético até a medula, vê na ciência e na filosofia as melhores ferramentas para a compreensão do universo. Vlogger do canal PAPO DE PRIMATA, tem como principais hobbies cinema, literatura e discussões acaloradas com os amigos (de preferência, regadas a cerveja bem gelada).

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