Dialtica

Je suis Charlie

O que pode ser mais sagrado que a vida humana?

Que tipo de ideologia religiosa pode ser mais cara que a existência de 12 vidas humanas? O que justificaria o massacre de pessoas que apenas lutavam pelo seu direito (e, afinal, o de todos nós) a uma das liberdades mais básicas, a de expressão?

Neste dia 7 de janeiro, fundamentalistas religiosos islâmicos invadiram a redação da revista francesa Charlie Hebdo, conhecida pelas suas charges sarcásticas e irreverentes que muitas vezes enfureceram radicais religiosos, disparando seus rifles automáticos e assassinando 12 pessoas. Oito vítimas trabalhavam no local. Duas outras eram policiais. Um funcionário do prédio e um infeliz visitante também morreram.

Entre os primeiros mortos identificados, quatro dos mais talentosos cartunistas da atualidade: o editor da revista, Stéphane Charbonnier (mais conhecido pelo nome artístico de Charb), Wolinsk (a lenda francesa que influenciou Jaguar, Ziraldo e Henfil), Jean Cabu e Bernard Verlhac (conhecido como Tignous). Outros cartunistas e colunistas foram identificados posteriormente.

“Vingamos o profeta!”, gritaram os atiradores. “Matamos o Charlie Hebdo”.

Estão errados! Não mataram o Charlie Hebdo. Trucidaram seres humanos, essa é a verdade. Mas ao ato assassino, seguiu-se uma onda de solidariedade internacional, apoiando a publicação, lamentando as mortes e repudiando o atentado. Charges de Maomé surgem em todos os cantos do globo. A religião muçulmana mais uma vez encontra-se em xeque, mostrando que o radicalismo facínora é uma faca de dois gumes, capaz de provocar tantos danos em quem a empunha quanto em quem é atingido.

Dos fundamentalistas, aliás, não se espera coisa muito diferente. O que se espera agora é uma reação dos moderados. Até quando protegerão e admitirão em suas fileiras estas alas radicais que matam em nome de sua crença? E uma outra pergunta deve se estender ao resto do mundo que trata a religião como uma ideologia que merece tratamento e deferência especiais: até quando tolerarão isto? Teremos que, mais uma vez, ouvir que a culpa foi das vítimas, que não deveriam zombar do que é sagrado para os outros?

Enquanto choramos pelos mortos, nos indagamos: há esperança? Será que o fundamentalismo religioso assassino e irracional será extinto antes de que a própria civilização desabe em ódio, sangue e cinzas? E em um tempo onde jihads coexistem com armas biológicas e nucleares, podemos dizer que estamos seguros?

O atentado foi, acima de tudo, um ataque à liberdade de expressão. Mas ela sobreviverá.

Tem que sobreviver!

Nous sommes tous charlie!

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