Ch de Dvidas

Faltam rolas para os fundamentalistas e empregos para os LGBTs

Ontem, 29 de novembro de 2015, gastei meu domingo num anexo do Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói, RJ, participando da 3ª Conferência Estadual LGBT. Fui lá porque sou bissexual e o que se discute sobre os LGBTs me diz respeito. Mais: me atrevo a falar disso em sala de aula apesar da gritaria dos fundamentalistas contra a “ideologia de gênero”, termo que inventaram para tentar obrigar os educadores a fazerem de conta que todo mundo é hétero e todo mundo é cis. Quase fui esquartejado vivo por defender a verdade na Câmara Municipal de São Gonçalo, RJ, quando se discutia “ideologia de gênero”, e não a totalidade do Plano Municipal de Educação. Disse com todos os fonemas: “Como eu vou fazer de conta que todo mundo é hétero se eu não sou?” Havia um representante do governo estadual de MG no auditório, nem sei como foi parar ali, mas peguei o microfone e disse a ele: “Saiba que todos os anos eu falo do amor de Elizabeth Bishop e de Lota Macedo Soares na aula de Português. Todo ano eu uso uma página da peça ‘Um Porto para Elizabeth Bishop”, de Marta Góes, porque sei que nem todo mundo é hétero e essa página pode fazer diferença para essas pessoas que se sentem diferentes. A casa de Elizabeth Bishop está lá em Ouro Preto, Rua Conselheiro Quintiliano, 548, com plaquinha da prefeitura na fachada, homenageando a poetisa e ninguém em Minas deixou de ser hétero por causa disso.”

Mas eu não quis fazer parte do grupo que discutia Educação. Educação para a diversidade eu não discuto, eu pratico contrariando dogmas. Aliás, ateu que sou, atrevo-me a usar trechos de Jorge Amado que falam da perseguição aos candomblés e os fundamentalistas sempre pedem minha cabeça por causa disso. Se eu estiver errado e os orixás existirem, terão que reconhecer essa minha solidária ousadia.

Eu participei do grupo de trabalho sobre emprego e renda. Aliás, fui lá para isso mesmo. Falei no início dos trabalhos: “Bruno Gagliasso tirou foto vestindo a camisa do Grupo Arco-Íris e pediu aos fãs que comprassem essas camisas para financiarem esse grupo que fez história na luta pela dignidade LGBT. Mas não dá para esperar que ele tenha esse gesto de solidariedade para com todos os grupos militantes do Brasil. É preciso que eles se autofinanciem, é preciso garantir a sobrevivência dos LGBTs. Imaginem ensinar LGBTs a fazerem sushi e montar uma cooperativa para que ganhem seu sustento, imagine criar em Friburgo uma cooperativa que produza roupas artesanais (tricô), imaginem uma cooperativa para criar escargots e fornecê-los para os restaurantes chiques do Rio de Janeiro” (vejo aqui numa página da Internet que dá para começar uma criação de escargots numa área de 20 m² com um investimento inicial baixíssimo). “Pensemos em cursos que preparem essa galera para concorrer a vagas em concursos. Digo isso porque se um jovem gay tem dinheiro no bolso, se uma jovem lésbica paga suas contas, se uma travesti pode sair de casa e dividir um apartamento com uma amiga, quando a família levar um pastor para exorcizar a ovelha desgarrada, essa consciência orgulhosa poderá levantar a cabeça e mandá-lo procurar um rola.”

Terminei o dia eleito delegado para a Conferência Estadual no Rio de Janeiro. Lá repetirei o mesmo discurso e buscarei parcerias para torná-lo realidade.

Os LGBTs não podem esperar por milagres nem pela solidariedade do Bruno Gagliasso, que é lindo, talentoso, generoso, mas, como todo ser humano, tem seus limites.

Em tempo: dedico a coluna de hoje ao amigo Sergio Viula, o primeiro a me falar dessa Conferência.

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro perdeu toda e qualquer esperança de ser normal. Paga suas contas lecionando Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, delicia-se praticando teatro de vez em quando, comete a imprudência de escrever versos, atreve-se a praticar a arte da tradução e, como se não bastasse, torce pelo Vasco da Gama. Gosta de tomar chá e semear dúvidas.

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4 respostas

  1. Texto que dediquei ao Sergio Viula.

  2. Sergio Viula disse:

    Vou ver com carinho. Obrigado, lindo.

  3. Não foi esse cara quem disse que, por prevenção, fazia exame de próstata TODOS OS DIAS?

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