Humanismo

Não sou machista, mas…

Toda vez que vemos notícias ou comentários a respeito de como o machismo afeta nossa sociedade, mesmo sendo tão presentemente enraizado, é comum encontrarmos pessoas querendo minimizar aspectos do machismo, fazendo uma pseudorregulamentação do que deve ser machismo e o que não. Este é um erro comum, compreensível, mas nem por isto menos importante.

Comum, pois que é muito utilizado por pessoas que veem seus estilos e modos de vida afetados, e como associam sempre o machismo a um mal que não pode lhes acometer – já que se este é um mal e eu não sou mal; logo, não sofro deste mal – erram ao não perceber o quão uma internalização social possa afetar outro; compreensível pois a internalização (como já dito) é enraizada ao ponto de realmente não percebermos quando estamos repassando conceitos machistas – algumas vezes nem o detrator nem o detrator nem o receptor se apercebem de tal. Mas como também citado, é importante se atentar a isto pois fugimos sempre do foco que é o outro, a importância que determinados termos colocados ao outro possam afetar.

Achar que uma declaração do tipo “não sou suas nega” ou “a mulher tem que se valorizar” não são machistas incorre nas situações citadas acima pois eleva à condição de que o ponto negativo da sentença sempre é levado para o caráter feminino. Dizer que uma existem coisas próprias de mulher e próprias de homem também é incorrer nisto, pois quase sempre se extrapola as questões biológicas para criar uma inferiorização.nc3a3o-sou-machista-mas

Há também os aspectos jocosos apresentados pelos que veem o feminismo como uma separação dualística “machismo x feminismo” (este maniqueísmo é errado e explicarei melhor em outro texto). Alguns dizem que “as feministas não gostam dos machistas, mas aceitam que lhes pague a conta do restaurante, pois lhes convém”. Errado de novo! Em casos assim, o que há é um consenso entre as partes, um acordo em que este ou aquele farão isto ou aquilo, independentemente do que se introjetou socialmente. E este acordo não deve ser, de forma alguma, uma imposição de qualquer lado. Deve sempre ser algo que haja em comum acordo. Sim, é claro que este acordo dificilmente fugirá do cerne imposto pelo machismo da sociedade, mas alguém que vê um gosto de fazer algo que remeta ao machismo e lutar contra este não é paradoxal. É a vontade do indivíduo prevalecendo sobre ele mesmo, mas não à base da força e coação por outro.

Numa sociedade que realmente lute por direitos iguais, temos sempre que partir do preceito que os direitos iguais significam a pessoa ter a liberdade de ser o que lhe valha, o que lhe apetece, o que lhe dá prazer. E isto não é feito desfazendo as lutas pelos direitos iguais.

Isto sim seria paradoxal!

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Henrique Dal Bo Campanilli

Henrique Dal Bo Campanilli

Henrique é poeta, colunista, aprendiz de cachaceiro e de gaita; torce pela humanidade, apesar desta muitas vezes não lhe dar motivos para tal.

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