Conjecturas Histricas

O último nazista

‘Hess proclamou sua fé em Hitler de modo desafiador: “Não me arrependo de nada!”’

Rudolf HessHomem alto, de gestos refinados e extremamente culto (obteve formação acadêmica em ciência politica, história, economia e geopolítica pela Universidade de Munique), Rudolf Hess foi considerado um dos nazistas mais próximos de Adolf Hitler.

Tendo ajudado Hitler a escrever a sua obra, Mein Kampf, que se tornou a principal plataforma política do NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães), é sem dúvida uma das personalidades mais polêmicas do Terceiro Reich, a contar pela sua nacionalidade (Egípcia), sua ascensão e queda no Partido Nazista, seu tão famoso “vôo pela paz” em 1941 para negociar com a Inglaterra (há controvérsias!) e sua questionável “demência”. Somente por esses fatos, Hess já se torna uma figura que merece nossa atenção.

Hess era filho de um comerciante bávaro e mãe britânica. Nasceu no dia 26 de abril de 1894, em Alexandria, no Egito. Serviu na Primeira Guerra Mundial, nas forças alemãs. Em 1920, aderiu ao partido dos trabalhadores alemães, ao conhecer Hitler.

“Eu vi um homem nessa noite, e ele vai trazer de volta o lugar onde a Alemanha ocupou antes da [Primeira] guerra, e este é o único que pode fazer isso, que é capaz disso!” (palavras de Rufolf Hess, segundo seu
filho, Wolf Hess).

Foi o terceiro homem mais poderoso da Alemanha Nazi, atrás somente de Hitler e Hermann Göring. No entanto, devido à ascensão de personalidades como Göring, Himmler  e Goebbels, Hess passou um pouco despercebido na história.  Porém, além de aparecer em manifestações e palestras em nome de Hitler, Hess redigiu grande parte da legislação – incluindo as Leis de Nuremberg de 1935, as quais retiravam os direitos dos judeus na Alemanha e que estiveram na origem do Holocausto.

Em 1941, em meio à Segunda Guerra e pouco antes da invasão da União Soviética pela Alemanha, ele voou para a Escócia para negociar um acordo de paz bilateral com a Grã-Bretanha. O plano previa que a Europa ficasse com os nazistas, e os britânicos poderiam manter seu império em outras partes do mundo – somente as antigas colônias alemãs teriam de ser devolvidas. Os britânicos, como se poderia esperar, não aceitaram a proposta. Hess foi imediatamente preso e permaneceu no país até 1946, quando foi julgado.

Bom, os fatos conhecidos são estes, mas ainda existem muitas incertezas no ar. Muitas informações devem ainda vir à tona, com o decorrer dos anos. Será que Hess levava mesmo a sério o seu plano de paz? Qual era o papel exato dele no regime nazista? Hitler estava ciente do plano?

Ainda durante a guerra, Hess foi considerado mentalmente doente. Sua estratégia de defesa em Nuremberg baseava-se nisto. Até hoje, é considerado por neonazistas um herói de guerra capturado pelos britânicos.Os documentos originais, entregues por Hess aos oficiais britânicos, estão guardados na Grã-Bretanha. Ao menos até 2018, não estarão disponíveis ao público.

Por fim, morreu de forma misteriosa no presídio de Spandau, situado na antiga Berlim Ocidental. Presídio este que foi construído em 1876 e demolido em 1987, após a morte de Hess, seu último prisioneiro!

De acordo com a tradição, Hess foi condenado à prisão perpétua (por insistência da URSS) no tribunal de Nuremberg. Em seguida foi aprisionado no presídio de Spandau, sob acusação de criminoso de guerra, onde permaneceu até a sua morte, em 1987, aos 93 anos. Segundo o laudo da necropsia americana e inglesa, suicidou-se. Mediante os relatos, ele enrolou um cabo elétrico no pescoço, na casa do jardim. A enfermeira pessoal de Hess, contudo, fez declarações diferentes sobre o caso. Ela teria encontrado Hess sem sinal de vida no interior da casa do jardim. Tentando reanimá-lo, pediu o saco de primeiros socorros que, segundo ela, “foi entregue com uma grande demora, exageradamente longa”, chegando-lhe às mãos já aberto, com os instrumentos cirúrgicos destruídos e a garrafa de oxigênio vazia.

Há muitas questões levantadas sobre Hess nesse emaranhado de informações de historiadores, biógrafos, pesquisadores e entusiastas da Segunda Guerra: divergências e dúvidas sobre sua verdadeira função, sua demência, se foi herói ou bandido, se foi feita justiça ou injustiça. São questões que também existem para outras figuras de guerra que tiveram penas mais leves, como o Almirante Doenitz (10 anos de prisão), o Arquiteto Speer (20 anos de prisão) a até os absolvidos como Hans Fritzsche, Franz von Papen e Hjalmar Schacht, que assim como Hess, exerceram seu papel e cumpriram sua função no Reich.

O vídeo abaixo faz parte do filme/documentário “Triumph des Willens” (O Triunfo da Vontade), filme alemão da cineasta Leni Rienfenstahl de 1935. Recomendo que se assista a todo o filme, porém quero destacar o discurso de Hess, aos 00:28:20, que contem uma sucessão de frases apologéticas dos representantes do partido, intercaladas por aplausos constantes e ovações. Culmina com a saudação ao líder, visto em close em vários momentos dos discursos: Sig Heil!, Sig Heil!, Sig Heil, diz Rudolf Hess, olhando para o próprio Hitler, que imediatamente levanta para receber, também com o braço direito erguido, as saudações de uma multidão em delírio.

 

Nesse vídeo, do arquivo de Guerra Britânico, alguns momentos chaves do julgamento de Nuremberg:

 

Algumas declarações de Hess:

“Não me defendo de meus acusadores, aos quais nego o direito de me acusarem, a mim e aos meus compatriotas”.

“Não me defendo das acusações que competem aos assuntos internos da Alemanha, e que nada importam aos estrangeiros.”

“Não protesto contra as declarações que afetam a minha honra e a honra de todo povo alemão. Durante longos anos de minha vida me foi concedido viver ao lado do homem mais poderoso produzido por seu povo em sua história milenar. Mesmo se pudesse, não desejaria apagar esse tempo de minha existência.”

“Eu me sinto feliz por haver cumprido com o meu dever como alemão, como nacional-socialista e como fiel do Führer.”

“Não me arrependo de coisa alguma. Se tivesse de começar tudo de novo, trabalharia da mesma forma, mesmo sabendo que ao final me aguardaria uma fogueira para a minha morte.”

“Pouco importa o que podem fazer os homens. Comparecerei diante do Todo-Poderoso. A Ele prestarei minhas contas, e sei que me absolverá.”

LandscapeRudolf Hess (primeira fileira, em segundo da esquerda), no  banco dos réus do Julgamento de Nuremberg

Fontes: BBC history/Só pesquisas/Nelson Sampaio jr/A Farsa de Churchill, Louis Kilzer/ Cinco Dias em Londres, John Lukacs/ dw.de/Café História/Inferno:o mundo em guerra 1939-1945/Max Hastings/ A Era dos Extremos, Eric Hobsbawn

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Alisson T. Araujo

Alisson T. Araujo

Gaúcho dos que gosta de um chimarrão bem amargo, acadêmico do curso de História e pesquisador, técnico em radiologia, músico, guitarrista e um amante da libidinosa Ciência e Filosofia. Seu foco em história é povo, cultura e religião, com ênfase em monoteísmos, suas influencias, origens e a eterna dúvida sobre sua verdadeira função social. Fã de cinema, música, séries, HQ’s e cultura pop.

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