Conjecturas Histricas

O fundamentalismo ataca estudantes no Quênia

No dia 02 de abril de 2015 (quinta-feira), o grupo fundamentalista islâmico  Al-Shabaab (“A juventude“), também conhecido como Harakat al-Shabab al-Mujahideen (Movimento do Jovem Guerreiro“) , uma rede terrorista filiada ao Al- Qaeda e atuante no sul da Somália, atacou uma universidade na cidade de Garissa, no Quênia, deixando 147 mortos e 79 feridos.

O ataque começou às 5h30min (hora local), provocando um tiroteio entre os jihadistas e os policiais guardas da universidade. Dois guardas foram mortos na entrada. Os atiradores foram para o bloco de administração e, posteriormente, às salas de aula antes de entrar nos dormitórios.

20 estudantes foram resgatados por soldados. O sobrevivente Collins Wetangula, membro do grêmio estudantil, descreveu a presença de pelo menos cinco homens armados mascarados. “Se você fosse cristão, era alvejado ali mesmo. A cada disparo eu achava que iria morrer”, afirmou Wetangula. O estudante ainda relatou que ao ouvir disparos, trancou-se com outros colegas em seu quarto. “Tudo que pude ouvir foram passos e disparos, ninguém gritava porque as pessoas achavam que isso faria com que os atiradores soubessem onde estavam”. Quando os atiradores chegaram ao seu quarto, Wetangula pôde ouvi-los abrindo portas e perguntando se as pessoas escondidas eram de fé muçulmana ou cristã. Se fossem cristãos, eram mortos na hora.

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O Al-Shabaab afirmou que a ação é uma vingança contra a intervenção de tropas do Quênia na Somália. O grupo, que controlou o Mogadíscio (capital da Somália) a partir de 2006, sendo coordenado pelo Conselho Supremo de Cortes Islâmicas – grupo de líderes islâmicos liderados pelo  xeque Sharif Sheikh Ahmed, sétimo presidente da Somália, foi expulso da capital em 2011, perdendo terreno para a ofensiva militar de forças somalis e União Africana. O Al-Shabaab (que é uma subdivisão radical da União dos Tribunais Islâmicos) têm lançado ataques de guerrilha e atentados e esteve por trás de um ataque que matou 67 pessoas, em 2013, contra um shopping center em Nairóbi, no Quênia. Somente no Quênia, já foram mais de 200 mortos nos últimos 2 anos. O grupo utiliza uma tática de separar muçulmanos de cristãos em seus ataques, atitude que vem desequilibrando a relação dessas duas comunidades no país.

Noticias mais recentes indicam a identificação de um dos terroristas como um jovem queniano da etnia somali, formado em Direito em Nairóbi. Em sua declaração, o porta-voz do ministério do Interior, Mwenda Njoka falou sobre o jovem: “graduou-se na Faculdade de Direito de Nairóbi e era descrito como alguém com um futuro brilhante”.

Uma campanha no Twitter mostra quem são as vítimas do massacre, usando a hashtag #147NotJustANumber, com a intenção de humanizar e individualizar o debate sobre o tema, já que muitos destes atentados passam despercebidos do grande público e das autoridades mundiais, tratados muitas vezes como “apenas mais um” dos já conhecidos atentados terroristas na África.

Mais uma vez, essa patologia fundamentalista/extremista/fanática faz suas vítimas pelo mundo. Este massacre horrendo em Garissa é mais um a nos escancarar os perigos da ideologia fundamentalista religiosa somada à política, uma das piores combinações produzidas pelo homem, que agride a sociedade livre a cada instante, com sua intolerância, seu radicalismo e sua violência.

Qual é o primeiro principio fundamentalista? A crença de que há um espaço na religião que não possa ser interpretativo, que seja pura fonte e revelação, que seja a vontade direta e expressa de deus em suas revelações, através de profetas, aparições pessoais e escrituras – um momento onde deus “falou” diretamente comigo, e quem faz a hermenêutica dessas mensagens, reinterpretando as revelações, acaba traindo uma vontade original.

Um fundamentalista hindu  matou Gandhi. Fundamentalistas americanos protestantes formaram  a Ku Klux Klan. Fundamentalistas xintoístas mataram-se durante e pós Segunda Guerra oferecendo seu corpo (os já conhecidos kamikazes, cujo termo significa “vento divino”, que sacrificavam-se como oferenda ao imperador – um emissário divino). Algumas atitudes budistas podem também ser consideradas fundamentalistas, como a autoimolação (ações que alguns monges budistas tiveram durante a Guerra do Vietnã), que se queimavam vivos em oferenda a Buda e protesto contra a Guerra.

Esta mazela está espalhada por todo o globo. Ela não tem rosto, etnia, classe social, escolaridade ou nação. É fruto exclusivo do homem. Fruto da nossa própria espécie, enraizada em nossa cultura e alimentada durante anos por líderes religiosos e políticos somente para satisfazer seu etnocentrismo.

Abaixo deixo um trecho da palestra “Confrontos religiosos e fundamentalismos” do Professor e historiador Leandro Karnal:

“O fundamentalismo é um princípio presente em todas as religiões, não é um princípio específico de uma religião. Há fundamentalistas hindus, há fundamentalistas judeus, há fundamentalistas católicos, há fundamentalistas islâmicos e budistas também. Há fundamentalistas sikhis e xintoístas, há fundamentalistas em todas as expressões religiosas. Talvez uma evidência do gênero humano é a absoluta democracia de como a imbecilidade foi distribuída pela humanidade. Ou seja nenhum grupo, nenhuma etnia, nenhuma classe social, nenhum período histórico foi mais ou menos imbecil do que outro, matou mais ou menos. Quando temos meios técnicos matamos mais, quando temos menos meios técnicos matamos menos.”

 

Reportagens sobre o atentado em Garissa:

 

 

 

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Alisson T. Araujo

Alisson T. Araujo

Gaúcho dos que gosta de um chimarrão bem amargo, acadêmico do curso de História e pesquisador, técnico em radiologia, músico, guitarrista e um amante da libidinosa Ciência e Filosofia. Seu foco em história é povo, cultura e religião, com ênfase em monoteísmos, suas influencias, origens e a eterna dúvida sobre sua verdadeira função social. Fã de cinema, música, séries, HQ’s e cultura pop.

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12 respostas

  1. Rodrigo Sousa disse:

    religiao a pior doença mental

    • Não a religião, o fanatismo, as pessoas fazem coisas horríveis por religião, assim como também fazem por ideais políticos ou de qualquer outra natureza, e as pessoas fazem muitas coisas boa também pela religião!
      Mas nós gostamos de divulgar a barbárie, e esquecemos das coisas boa apenas por não ser o que nós acreditamos.
      E a religião em si condena esse tipo se ato!
      Os mulçumanos fanáticos que fazem esse Tipo de merda são minoria, só são os que ganham mais fama na mídia!

    • Não dá pra justificar isso dizendo que são minoria, muitos muçulmanos apoiam, msm que silenciosamente, esse tipo de ato. A própria religião deles faz isso. Quase todas as religiões motivam preconceitos e ignoram ciência. Agora, vc não enxerga um problema muito grande nas religiões dogmáticas?

    • Gabriel, fanatismo não é o problema. Existe uma religião chamada Jainismo, e o pior dos fanáticos nessa religião, o pior que ele pode fazer é se matar sem respirar para não matar um micro-organismo.
      O problema é a religião em si, o islamismo comanda que você mate infiéis e pessoas de outras religiões. O cristianismo comanda que você mate gays. Então, os fundamentalistas e extremistas quando cometem essas barbáries estão apenas seguindo o que a religião os comanda.
      O grupo ISIS possui uma das interpretações mais fiéis e diretas do Alcorão. O que eles fazem está tudo escrito no livro deles. Me diga uma coisa importante que o grupo ISIS está fazendo que não está escrito no Alcorão ou no Haddith, ou não foi feito pelo próprio profeta maomé.
      Faça essa proeza e você estará perto de ter um ponto válido nessa discussão.

    • Filippe Andre disse:

      A religião é a porta para a irracionalidade. O modo religioso de se pensar estimula a ignorância, a certeza de uma ideia com base na irracionalidade. É um estímulo à ignorância e à preguiça de pensar. O modo pelo qual a religião envenena tudo é muito insidioso, ela leva as pessoas a fazerem todo tipo de coisa, boas e ruins, irrelevantes e relevantes, mas o cerne da desgraça que ela espalha está no estímulo à ignorância, no estímulo da forma crédula e fanática de refletir sobre as coisas.

      Se a religião está num extremo, o ceticismo está no lado oposto.

    • Rodrigo Sousa disse:

      no futuro dirão que essa doença que envenena a alma foi extirpada… como tantas outras mais fáceis de serem como câncer e aids

    • Thiago Oliveira, concordo em grande parte com o que você escreveu. Faço algumas ressalvas, mas como estou sem tempo agora, talvez mais tarde volte para expor melhor o que penso. Só para encerrar: religiões de uma maneira geral induzem ao obscurantismo e dogmatismo cego. Como disse o Filippe Andre, “é a porta para a irracionalidade”.

    • Nat Rib disse:

      Religião é para crianças! Cresçam e encarem a realidade! As vezes ela será dura, porém outras será bela.

  2. Seria interessante separar alguns fatores sobre esse tema, pois no caso desse atentado, apesar de sempre conter elementos religiosos em crimes desse porte( é a base que alimenta o fundamentalismo) ele é fruto de guerrilha, retaliação, política, disputa territorial que vem acontecendo na fronteira desses países, como o texto explica. O atentado não teve como objetivo o fator religioso, foi usado como mais um elemento, algo que o Grupo terrorista vem usando em suas táticas terroristas, como separar muçulmanos de cristãos….segundo algumas fontes, o Quênia é de sua maioria seguidora do cristianismo( 82%) vindo logo a baixo com 11% de muçulmanos…mas o atentado em si, não teve como justificativa o elemento religioso…

  3. Penso que os cristãos deviam revidar até se acabarem mutuamente.

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