Opinião: DEUS NÃO É GRANDE

DEUS NÃO É GRANDE – COMO A RELIGIÃO ENVENENA TUDO
(God Is Not Great – How Religion Poisons Everything)
Christopher Hitchens, 2006

Vivemos em uma época de intensa religiosidade, que não está limitada aos templos, locais sagrados ou residências dos fiéis. A influência religiosa espalha-se pelas esferas públicas, penetra nas escolas, dificulta o desenvolvimento científico, mata milhares de pessoas (religiosas ou não) todos os anos. Criacionistas atrapalham o ensino da evolução, tentando igualar teorias científicas a lendas da idade do bronze. Terroristas matam centenas em locais públicos, em nome de crenças que lhes promete recompensa infinita por estes assassinatos em massa. Crianças são mutiladas todos os dias, em tradições que, não tivessem origem religiosa, seriam proibidas em qualquer nação com o mínimo de desenvolvimento humano. Importantes pesquisas que podem literalmente fazer com que paraplégicos voltem a andar são prejudicadas por militância religiosa que considera que um amontoado de células tem mais direitos que deficientes que sofrem – e sofrerão – por toda a vida. Homossexuais são vítimas de preconceito medieval incentivado pela religião, da mesma forma que canhotos um dia foram tratados como encarnações de demônios.

Christopher Hitchens nasceu no final dos anos 40 na Inglaterra e teve, como muitas crianças da sua geração, uma educação religiosa. Desde cedo, no entanto, notou que havia de muito errado na pregação de ouvia da sra. Watts, sua professora de infância. Aquela visão distorcida da realidade, que enxergava um mundo feito apenas para o conforto dos abençoados seres humanos, não podia estar certa! Hitchens cresceu, tornou-se um consagrado jornalista, premiado colunista e autor de best-sellers. Em 2005, foi considerado o 5ª intelectual mais influente do mundo, em uma lista que continha 100 grandes pensadores. Mas nunca deixou de contestar os males que a religião institucionalizada causa à humanidade.

Em “DEUS NÃO É GRANDE”, seu penúltimo livro, Hitchens não poupa argumentos para mostrar o quanto a crença generalizada é nociva para a sociedade. Enumera com precisão os problemas causados pela influência religiosa, os efeitos deletérios da alienação e os absurdos contidos nos dogmas sagrados. Sua ira não é disfarçada; Hitchens desfere um golpe atrás do outro, com uma precisão argumentativa formidável, fruto de anos de experiência como ensaísta e correspondente internacional, além de um vasto conhecimento literário e filosófico. Ninguém é poupado: do cristianismo ao islamismo, passando pelo judaísmo, o autor mostra que mesmo as religiões orientais, tão aclamadas como pacíficas e serenas, também são causadoras de sofrimento e morte.

O subtítulo (“Como a religião envenena tudo”) é justificada em vários pontos. Da efervescência cultural árabe na Idade Média, refreada pelo obscurantismo religioso que ainda domina o Oriente Médio, colocando seus habitantes na condição de um dos povos mais atrasados do planeta, a preconceitos arraigados na sociedade que, sem estímulo confessional, seriam obliterados pela razão, Hitchens analisa todas as características alegadamente boas da religiosidade, demonstrando que poderiam ser conseguidas sem o fardo dos males que acompanham a crença generalizada e derrubando sistematicamente os argumentos de que a religião seria necessária para a sobrevivência da civilização.

Sua caneta não poupa festejados ícones religiosos, como Ghandi ou o Dalai Lama. Ele escancara como as grandes religiões protegem-se umas às outras, num vergonhoso cartel para manter dogmas intocados pelas leis (causa arrepios o trecho em que ele descreve a leniência com que o Vaticano tratou a fatwa contra Salman Rushdie, ou o caso dos assassinatos e embaixadas destruídas por causa de caricaturas de Maomé, quando as autoridades católicas condenaram as vítimas e relativizaram os agressores). Hitchens traz à tona informações e dados capazes de chocar o mais impassível dos leitores.

E é proposital. O escritor avisa: o secularismo mais uma vez está ameaçado. As grandes religiões não recuarão ou abrirão mão do seu poder facilmente. Para a razão prevalecer, precisamos de um novo Iluminismo. E ele só virá através da educação e do fim da condescendência com a crueldade blindada pelo argumento de proteção cultural.

Christopher Hitchens faleceu em 2011, vítima de câncer de esôfago. Sua verve magnífica produziu um dos maiores libelos contra o fundamentalismo nos dias de hoje. ‘DEUS NÃO É GRANDE’ não é um ataque irracional à religião; é a constatação de que alguns mamíferos humanos, falhos e imperfeitos como todos os outros, querem deuses à sua imagem e semelhança – e, inevitavelmente, tão defeituosos quanto eles. E os imporão a todos os incrédulos – a preço de sangue, se necessário!

Nota 10

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12 respostas

  1. Adriano de Farias F. Silva disse:

    Estou procurando um exemplar e não acho.
    em diversos sites brasileiros, foram esgotados. E muitos comentam que foi proibido a venda no Brasil.
    Quem tiver o exemplar a mais e quiser vender. Eu compro.

  2. kaue leonardo disse:

    Se alguem souber onde achar este livro ou quiser vender, fico no aguardo de uma resposta.
    Não encontrei em livraria nenhuma, nem em sites e sebos do estantevirtual, livronauta e mercado livre… até os do Sam Harris estao dificeis de ser encontrados…o unico que consegui foi o “Carta a uma naçao cristã”…
    O unico autor que é facil de encontrar é o Dawkins e o Bertrand Russell… já o Hitchens e Sam Harris, dificilimo

  3. Henrique de Almeida Lara disse:

    Preciso ler o livro para poder opinar.

  4. Douglas Ferreira disse:

    Comprei este livro por R$ 125,00 na Estante Virtual, tem outros exemplares lá, porém vão de R$ 180,00 a R$ 250,00.

  5. Eduardo Shiroma disse:

    Papo De primata , não tem como digitalizar o livro , pois está escasso no mercado , há muito tempo o procuro e até agora , sem sucesso !
    Atualmente vivo no Japão , então você imagina a dificuldade de obter livros em português !
    Tenho a versão em inglês , mas gostaria de ler em português , abraço !

  6. Rafael Melo disse:

    Tenho o livro. Mando pra você em qualquer lugar do brasil. 150,00
    Abraço. QUalquer coisa manda email rafaelmeloeq@gmail.com

  1. 5 de agosto de 2014

    […] Leia aqui a resenha de “Deus Não é Grande“: http://papodeprimata.com.br/opiniao-deus-nao-e-grande/ […]

  2. 30 de janeiro de 2015

    […] para a temática ateísta: DEUS NÃO É GRANDE – COMO AS RELIGIÕES ENVENENAM TUDO (Clique aqui para ler a […]

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