Opinião: O GENE EGOÍSTA

O GENE EGOÍSTA
(The Selfish Gene)
Richard Dawkins, 1976

Em 1976, o biólogo Richard Dawkins debutava como escritor em grande estilo, sacudindo os alicerces da biologia evolutiva com um livro que trazia uma teoria no mínimo provocativa: a de que todos os seres vivos, das amebas aos elefantes (e, claro, os seres humanos) não passam de reles máquinas criadas pelos genes com o objetivo único de replicá-los. Complexas, claro, mas ainda assim máquinas – enormes robôs moldados pelo processo de seleção natural para promover a replicação dos genes neles contidos através de sua própria reprodução.

Deve-se dizer que o escritor sul-africano não foi o primeiro a apresentar a idéia. Os biólogos George C. Williams e William Hamilton já na década de 60 apresentaram esta teoria, mas ela popularizou-se com o livro de Dawkins, um fenômeno editorial com milhões de cópias vendidas em mais de 25 línguas. “O GENE EGOÍSTA” é um clássico que há três décadas surpreende pela vitalidade que ainda apresenta nas livrarias!

Mas o que tornou este livro um best-seller tão bem sucedido? Sem dúvida, a forma apaixonada e elegante com que o autor defende seus argumentos, empolgando o leitor no processo, é um fator importante. Dawkins é um divulgador científico muito eficiente, tratando de assuntos complexos com desembaraço e simplicidade, dando chance ao leitor mais leigo de acompanhar seu raciocínio facilmente, alheio ao fato de que transita por áreas da biologia e da genética desafiadoras para não iniciados. Não fosse esta capacidade literária, o livro provavelmente estaria fadado aos cantos das estantes reservados aos tomos procurados apenas por universitários.

Mas o principal motivo do sucesso da obra é, sem dúvida, a própria teoria. Nela, os genes são apresentados como a unidade básica da evolução pela seleção natural. Caracterizados no livro como replicadores imortais, os genes surgiram com a própria vida, estruturas moleculares estáveis o suficiente para se autocopiar antes de serem destruídas pelo ambiente violento em que se inseriam. Replicadores mais eficientes multiplicavam-se mais – os menos eficientes desapareciam, derrotados na luta pela existência. Com o tempo, estes replicadores começaram a se munir de invólucros protetores. Aqueles que desenvolviam as melhores proteções tinham chance de existir por mais tempo – e de se replicar mais. A complexidade dos invólucros foi aumentando. Inicialmente, paredes químicas constituídas apenas de moléculas simples. Posteriormente, corpos. Corpos complexos, especializados em manter em seu interior os genes, bem protegidos do mundo exterior. Corpos capazes de se reproduzir, replicando eficientemente os genes responsáveis por sua própria existência. Protozoários. Fungos. Palmeiras. Girafas. Nós.

Nas palavras de Dawkins: “[Os replicadores] são antigos mestres na arte da sobrevivência. (…) Mas não os procure flutuando livremente no mar. Eles abandonaram essa liberdade há muito tempo. Agora eles apinham-se em colônias imensas, vivendo com segurança dentro de gigantescos robôs desajeitados, murados do mundo exterior, comunicando-se com ele por meio de vias indiretas e tortuosas, manipulando-os por controle remoto. Eles estão em mim e em você. Eles nos criaram, corpo e mente. E sua preservação é a razão última de nossa existência. Transformaram-se, esses replicadores. Agora eles recebem o nome de genes e nós [todos os organismos vivos] somos suas máquinas de sobrevivência.”

E por que seriam os genes egoístas? Estes replicadores não são conscientes. Eles não “querem” se multiplicar. Eles apenas são muito eficientes nisso – e em um ambiente que privilegia essa capacidade, ele prospera. A forma como são selecionados naturalmente pode dar a ilusão de que estas moléculas presentes no DNA dos seres vivos têm motivações. Não é o caso. Da mesma forma que um elétron não escolhe orbitar um núcleo atômico, o gene não escolhe se multiplicar. Ele apenas o faz. Neste processo, ele não interfere diretamente na replicação de outros – mas como suas máquinas de sobrevivência dependem de recursos finitos, os replicadores competem entre si. Eles têm maiores chances de sucesso se garantirem a maior quantidade de recursos para os corpos que constróem, em detrimento dos seus adversários. E como cada ser vivo é programado para privilegiar a replicação de seus próprios genes, somos impelidos a sermos essencialmente egoístas.

O trecho do livro em que Dawkins explica o amor familiar é delicioso. Pais, filhos e irmãos têm maiores semelhanças genéticas entre si que com outros; daí o motivo pelo qual as máquinas de sobrevivência são compelidos a protegerem seus parentes mais próximos. Primos, tios, avós – cada nível de parentesco é cuidadosamente estudado sob a visão genecêntrica, e é difícil ignorar a torrente de evidências que nos são atiradas nos argumentos do livro. De insetos sociais a filhotes de cuco com instinto assassino, somos apresentados a combatentes na luta pela sobrevivência motivada pelos replicadores.

Finalmente, ao término da obra, ainda somos brindados com um capítulo sobre um novo replicador, nomeado pela primeira vez ali: o “meme”, a única básica de cultura, substituto moderno do gene como o mais eficiente veículo de multiplicação.

Embora a idéia do egoísmo genômico pareça desalentador e cruel, Dawkins não deixa de nos lembrar, durante toda a obra, que a tirania dos genes não passa de uma predisposição biológica. Não precisamos ser egoístas. Pelo contrário, o altruísmo é recompensado em várias espécies. Em algumas, este altruísmo não passa de individualismo disfarçado. Mas em outras, como a espécie humana, ele é mais que isso: é um desafio direto aos nossos replicadores. Se há algo belo em nossa humanidade, é esta capacidade de se rebelar contra estes minúsculos déspotas!

Nota 10

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1 resposta

  1. Daniel Medeiros disse:

    Excelente resenha. Estou muito querendo comprar esse livro. Na verdade a leitura desse livro vai servir de base para outros livro que estou querendo ler ligados ao estudo das bases neurológicas da fé.

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