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Por que a monarquia britânica sobrevive? – As aparências enganam!

No século XIX, Victor Hugo (1802 – 1885), romancista e poeta francês, autor de clássicos como “O Corcunda de Notre Dame” e “Os Miseráveis”, plantou um carvalho e escreveu em seu diário: “Daqui a cem anos, não haverá nem papas, nem reis nem guerras e esse carvalho será grande”. No século XX, Josué Montello (1917 – 2006), escritor brasileiro, comentou sobre o caso em um de seus diários: “Tenho dúvidas se o carvalho plantado por Victor Hugo continua lá”.

No dia 9 de setembro de 2015, Elizabeth II, que ostenta os títulos de “Rainha pela Graça de Deus” e “Defensora da Fé”, venceu sua antepassada, Victoria, como a pessoa que mais tempo se demorou no trono britânico. Ocasião notável para os 19 países sobre os quais ela reina. Esse é o momento para nos perguntarmos: por que sobrevive a monarquia britânica em um mundo inundado por ciência e tecnologia?

Para que serve a monarquia britânica? Andrew Marr, autor de uma biografia autorizada de Sua Majestade, “A Real Elizabeth”, publicada no Brasil pela editora Europa, escreveu nas primeiras páginas dessa obra: “A rainha representa a continuidade. Essa pode ser uma palavra fraca, mas quando se pergunta o que a rainha de fato representa, ‘continuidade’ é a palavra mais comumente usada por outros membros da família real, por primeiros-ministros, arcebispos e funcionários públicos experientes. ” (pág. 27). Se o jornalista tivesse feito a mesma pergunta a gente do povo, desde garçonetes oriundas das ex-colônias aos cientistas que desempenham pesquisas em Cambridge, “continuidade” continuaria sendo a palavra mais citada. Sem dúvida, há um efeito psicológico nada desprezível na consciência de milhões de pessoas que, apesar das mudanças nas políticas públicas orquestradas por uma sucessão de primeiros-ministros, veem sempre, ano após ano, o rosto da mesma mulher nas cédulas (no Reino Unido, ainda se usam no dinheiro retratos da jovem Elizabeth, recém-coroada, enquanto no Canadá os retratos acompanharam o desenvolvimento do rosto da rainha em suas seis décadas de reinado). Em meio aos vendavais da política, algo sempre se mantém. David Cameron disse que ela é “uma rocha de estabilidade num mundo em mudança”.

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Mais: há vantagens econômicas e culturais na manutenção da monarquia. Os 19 países são independentes da porta para dentro, mas o trânsito de pessoas e mercadorias é facilitada entre os países que cantam “God Save The Queen”. Um australiano pode emigrar para a Escócia, por exemplo, sem as mesmas preocupações que um brasileiro teria quanto a visto, green card, etc. Tanto assim que, nos anos 80, quando um partido de esquerda tomou o poder pelo método das armas em Grenada (ou Granada, como se diz em Português), uma ilha localizada ao Norte da Venezuela, e estreitou relações com Cuba, o novo governo não temeu um bloqueio econômico, pois o trono lhe garantia o fácil comércio com os outros reinos. A experiência esquerdista terminou quando tropas dos EUA, aliadas ao governo do reino-irmão da Jamaica, invadiram o país e depuseram os socialistas. Há os jogos do Commonwealth (competição esportiva entre países que foram colônias britânicas, incluindo repúblicas como a Índia e a África do Sul) e a Medalha de Ouro da Poesia, que a Rainha concede anualmente a algum poeta nascido em um dos seus 19 reinos.

Elizabeth II é a liderança máxima da Igreja Anglicana. E os primeiros-ministros britânicos precisam, por lei, serem membros dessa igreja, pois participam da escolha do arcebispo de Canterbury (o sumo-sacerdote anglicano), conforme me explicou o bispo anglicano no Rio de Janeiro, Dom Filadelfo Oliveira, a quem conheci numa passeata em Copacabana protestando contra o então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, pastor Marco Feliciano. Mas o governador-geral da Jamaica, Sir Patrick Allen, que cumpre as tarefas que a Rainha cumpriria se morasse em Kigston, é presidente da Igreja adventista naquela ilha.

Sim, no fundo, no fundo, o Reino Unido é uma teocracia! Mas não parece. Enquanto isso, o Brasil é um Estado laico. Mas não parece. Querem conferir? Em 1967, Elizabeth II sancionou a legalização do aborto. Aqui no Brasil, há faniquitos no Parlamento toda vez que alguém fala em dar às mulheres pobres o direito de interromper a gravidez em segurança (para as ricas, a proibição não faz diferença alguma). Na época em que o aborto se tornou legal na Grã-Bretanha nem divórcio tínhamos no Brasil, pois o Parlamento só teve coragem de contrariar as pressões dos religiosos em 1977 – e, ao contrário do que diziam os puritanos, a família não acabou por causa disso.

Em 29 de março de 2014, a Defensora da Fé sancionou a lei que permite que pessoas do mesmo sexo se casem (antes disso, a Igreja Anglicana já tinha ordenado um bispo declaradamente homossexual. Confiram no Youtube o documentário “Porque a Bíblia me Diz Assim“). Aqui, só conseguimos esse direito por intermédio do STF, porque a história do Parlamento brasileiro é uma história de acovardamento diante das ameaças das igrejas.

Antes disso, a Rainha pela Graça de Deus tinha dado a função de poeta laureado (que tem a tarefa de escrever poemas sob encomenda da Rainha e indicar quem, dos 19 reinos, ganhará a Medalha de Ouro da Poesia) a uma lésbica: Carol Ann Duffy. Quanta visibilidade! Enquanto isso, o Parlamento brasileiro assusta o povo com o fantasma da “Ideologia de Gênero” para que as escolas tapem o Sol com a peneira, fazendo de conta que todo mundo é heterossexual e que a anatomia determina a identidade de gênero. E a presidenta disse que “no meu governo, não haverá propaganda de opção sexual”, vetando o kit anti-homofobia do Ministério da Educação para que o ex-ministro Palocci não fosse chamado a depor numa CPI, conforme ameaçara o deputado pastor Marco Feliciano.

Cédulas e moedas ostentam, numa face, o rosto da Rainha e, noutra, o de Charles Darwin. Ninguém no Reino Unido cogita enfiar Criacionismo no currículo escolar. Aqui no Brasil sempre há um parlamentar defendendo esse absurdo, por mais que as entidades que congregam cientistas repudiem unanimemente tais sugestões.

É por isso que eu sempre digo que deveríamos convidar a Rainha para vir a Brasília nos ensinar como se faz um Estado republicano e laico. A teocracia britância respeita mais as liberdades individuais que a república laica brasileira. Acho que a principal razão de o professor Richard Dawkins reclamar tanto da monarquia britânica é por não conhecer a República brasileira. (Não, não simpatizo nem um pouco com a família real brasileira. Ouvi no Youtube declarações de D. Bertrand, candidato a rei do Brasil, que demonstram que ele não faz a mínima ideia do que seja uma monarquia moderna, tal como as europeias. “Leis contra a família, como a legalização do aborto, jamais seriam aprovadas numa monarquia”, foi uma das declarações desse semeador da ignorância.)

De qualquer forma, como Sua Majestade usa a Cruz de Malta na coroa, este vascaíno aproveita a ocasião para lhe dizer, ao final deste texto: “Congratulations, Madam!

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Edson Amaro De Souza

Edson Amaro De Souza

Edson Amaro perdeu toda e qualquer esperança de ser normal. Paga suas contas lecionando Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, delicia-se praticando teatro de vez em quando, comete a imprudência de escrever versos, atreve-se a praticar a arte da tradução e, como se não bastasse, torce pelo Vasco da Gama. Gosta de tomar chá e semear dúvidas.

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23 respostas

  1. A Monarquia britânica sobrevive porque é o melhor sistema de governo que existe! O sistema republicano favorece, e muito a corrupção, o toma lá dá cá para se conseguir apoio para votações e para eleições. Na monarquia, o monarca tem um nome de família a ser zelado, o parlamento pode ser rapidamente dissolvido em casos de desvios de conduta, há a certeza da continuidade de políticas públicas. A Escócia recentemente rejeitou a república, rejeitou até mesmo ser independente, por vislumbrar que a República não seria boa para o país… Seria o povo escocês atrasado???

  2. Pablo disse:

    Acredito que o modelo de governo brotanico é um exemplo. Mas dando a cada orgão a oportunidade de ser ouvido.
    Somente uns 2 pontos no texto que tenho algo para descordar.

    1- A legalização do aborto.

    Tendo a mulher uma gravidez sadia/normal e sem ter sido vitima de abusos. Não existe um “por que” que se sustente, pois poderia ter sido evitada com variados tipos de contraceptivos.

    2-Legalização dos direitos individuais de escolha de companheiros (prefiro chamar assim).

    Essa questão é um pouco mais complicada, mas tentareicolocar minha opnião da melhor forma possivel.
    Cada um tem a opção de escolha, mesmo que não tivesse ido ao STF ou OUTRO ORGÃO COMPETENTE, cada um pode sim ter ao seu lado uma pessoa do mesmo genero sexual. Não devemos descriminar e muito menos julgar a escolha de cada um.
    Mas também é preciso respeitar opniões contrarias as tais movimentos.
    EU ACREDITO QUE TUDO NA VIDA É UM ENCAIXE, HOMEM SE COMPLETA COM A MULHER E A MULHER COM O HOMEM. MAS EXISTEM PESSOAS QUE TEM OPNIÃO DIFERENTE DA MINHA, RESPEITO QUE PENSE DIFERENTE E ACEITO ISSO.
    Mas ao ponto de ter ” kit-sei la o que” acho set demais, crianças não merecem ser jogadas nesses jogos politicos.

    • Meu caro, sobre o aborto: recomendo que procure o site do dr. Drauzio Varella e leia um artigo que ele escreveu chamado “Medicina policialesca”, em que ele fala contra um médico que denunciou uma mulher a quem socorreu por ter feito aborto.
      Drauzio explica como são feitas as estatísticas do aborto no Brasil. são números impressionantes. E gravidez indesejada não é problema de gente ignorante: ele revela que até juízas e … médicas engravidam sem querer e fazem aborto. Em segurança, ao contrário das mulheres pobres.

  3. Junior Morais disse:

    Acredito que a Política seja uma ciência perfeita o que a suja com toda certeza é o torpe caráter dos muitos que a manipulam.

  4. Os que governa bem uma país é a honestidade e integridade de seus políticos

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