Macacos Que Somos

Tiririca reeleito no país da classe média

Se a opção por Tiririca é “voto de protesto”, não é tanto por ser um palhaço, mas por ser (provavelmente) disléxico, de origem humilde e porque, hoje, mais do que uma celebridade, é uma autoridade. Um ‘self made man’ dentre ‘os populares‘. No entanto, a nossa tão orgulhosa classe média teima em não querer conceder legitimação a isso, nem na persistência de sua reeleição… por que será!?

Um frame no Facebook mostra: Feliciano, Bolsonaro, Russomano – todos eleitos com votações expressivas. Demonstração clara de que esse país vive uma democracia, por mais que ainda imatura e imperfeita: o Brasil é tão democrático que corre o risco de eleger antidemocratas. Por outro lado, muita gente salvou o dia mostrando sua oposição a esses nomes, a suas posturas, suas ideologias. Completando o quadro (e sendo também alvo de críticas), Tiririca. Opa, espera aí… Tiririca? Por quê?

Esse é um caso à parte. Dá uma agonia danada ver seu nome no meio desses outros. mas, vá lá, são ossos do ofício: ele decidiu ser político. Mas é leviandade demais simplesmente incluí-lo nesse rol sem maior reflexão: enquanto todos aqueles galgaram sua carreira pública com intenção de poder mesmo, à custa de discursos de ódio, intolerância e força (quando não às custas da fé alheia), Tiririca concorreu e ganhou sua vaga com números invejáveis porque é um artista popular dos mais talentosos. Aí é que parece morar a raiz de toda a controvérsia e tensão: a reeleição do candidato, novamente com votação recorde, escancarou que o “voto de protesto” nele é mais significativo e substancial do que a mera desistência de e despeito à política. Para isso já tivemos 30% de votos nulos, brancos e abstenções nas eleições presidenciais…. Tiririca representa algo que nos escapa: ao menos a mim e ao meu círculo imediato de interação nas redes sociais, ao que parece.

Pensando no caso, lembrei de uma reflexão: para que serve o Horário Eleitoral Gratuito? Tirando as direcionadas ao Senado, todas as campanhas a cargos legislativos não fazem a menor diferença no sentido de convencer o eleitor a votar em um candidato. Tanto que a maioria sequer propõe algo nos poucos segundos de exposição: preferem ressaltar nome e número, posar com um padrinho político ou liderança comunitária e marcar de que localidades supostamente defenderão os interesses, naturalmente à espera de apoio nas urnas. Como disse Maurício Stycer, analista de tevê, em um vídeo de seu blog, esse parece um mecanismo obsoleto. Mas, ainda que o formato seja desencorajador e a linguagem esteja falida, não é absolutamente inútil, pois desempenham ao menos uma função: validar a existência da candidatura aos olhos de quem já está inclinado a votar naquele sujeito. Afinal os representantes do Legislativo, diferentemente do Executivo, via de regra mantêm uma ligação muito mais forte e presente com suas comunidades de origem eleitoral; aquele é o vereador ou deputado “do bairro”, “da comunidade”, “da associação” ou “do sindicato”. É muito fácil para qualquer pessoa próxima de nós dizer que vai ser ou é candidat@; só quando se vê a propaganda no ar se pode dar certeza de que “sim, aquele cara pode mesmo nos representar”. Os candidatos sabem disso e usam cada milissegundo de tevê ou rádio nessa intenção.Funny clown against the dark background

Isso, claro, é para os candidatos mais comuns; Tiririca e todos as outras celebridades em campanha eleitoral, como a “bancada da bola”, não são casos desse tipo. Muito além da proximidade geográfica, eles acessam outro nível do engajamento de seus eleitores: a sensação de pertença e identificação. Se isso existe, é por conta do que são e do que foram: eram pobres, de origem humilde, migrantes, artistas – mas que tornaram-se bem sucedidos. Não espero com isso que seus eleitores estejam cientes dessa correlação social para afirmar a validade da hipótese; mas é que no caso de reeleição, a pecha de “voto inconsciente” começa a perder sentido. O agora Senador eleito Romário se destacou como crítico contumaz da FIFA e da CBF; Tiririca por ser um dos deputados mais assíduos na Câmara, tendo antes enfrentado uma batalha pessoal contra sua possível dislexia para se provar um alfabetizado. O povo sabe o que é isso; e coloca seus vencedores na frente pública de batalha por sentidos de vitória e poder. “Não elegemos antes um ‘sujeito analfabeto’ para a presidência – e vimos a onda conservadora explorar esse mito sem dó nem piedade? Então agora elegemos outro – porque esse também é dos nossos, esse viveu a necessidade e sabe o que o povo precisa; esse, talvez, um dia faça mais por nós”.

Suspeito que é aí que muitos de nós não compreendem o fenômeno. Ora, se a nossa “classe média” já está desenraizada (ou se desenraizando) do convívio comunitário que forma as lideranças políticas, a única referência do candidato-celebridade acaba sendo mesmo a da mídia. Para esses, a forma como o pobre vê aquele candidato é a mesma que ele mesmo vê, o que não deixa de ser uma das ilusões mais absurdas: a identificação e a pertença, muito mais concreta e carnal do que meras abstrações e conjecturas, não pode mesmo ser sentida por quem está cognitivamente associado ao poder e distante do povo… e assim aflora a parte irrefletida de quem age naturalmente à revelia das relações sociais e de sentido estabelecidas. Acho até que a maior parte desses não fazem por mal, mas causam algum mal, pois colaboram para a manutenção das mesmas bases cognitivas, políticas e sociais da mesma teatralidade política de sempre, baseada em preconceitos e na dinâmica governamental de feudos…

O que melhorará a publicidade eleitoral? O mesmo que a política precisa para ser algo mais interessante: maior envolvimento político – não a opção por “lavar as mãos” que abocanhou 30% de votos no geral (e pelo menos um bom bocado dos válidos…) na corrida presidencial. Com maior envolvimento e convívio democrático com o diferente, com diálogos abertos e honestos, reconhecendo seus limites e contradições, os interesses se mostram mais claros e podem ser contestados, debatidos, reformulados, conciliados – não é sendo refratário, ainda mais tão visceral e inexplicavelmente, que se chega a um lugar melhor. A política pode ser difícil, complexa, apaixonante, viciante, frustrante, terrível e surpreendente; só não é aquela imagem chata e obsoleta de algo insípido e sem importância que a “mania de se indignar” apregoa… isso só é para quem quer acreditar que seja.

***

Tiririca é uma boa escolha? Não sei. Pode se tornar um espertalhão, vendilhão do templo? Talvez já seja; quatro anos é tempo mais do que suficiente para isso. Mas o eleitor e cidadão que adere tão facilmente a esses discursos é frequentemente o mesmo que, tendo condições (educativas, sociológicas, cognitivas…) de fazer o oposto, nutre a visão ingênua de uma “política ideal”, ou uma “nova política”, que emane não da realidade concreta das pessoas, mas de uma inspiração coletiva súbita e sem precedentes. Acha uma bazófia a eleição do palhaço e ressalta que não teve um único projeto aprovado ao mesmo tempo em que se diz enojado pelas volatilidade das alianças e coalizões… como confiar na capacidade de julgamento de um eleitor desses!? Se for o seu caso, amig@, recomendo a reflexão!

Quando era o desdentado Tiririca quem fazia graça da própria desgraça, em suas tiradas geniais (às vezes até preconceituosos, da forma como emana de nosso povo) de corpo, barriga, trejeitos e fala, muitos ríamos à beça. Quando fomos nós mesmos, a “classe média intelectualmente independente” que põe nariz de palhaço e protesta com um sonoro “cansei”, expostos em nossa contradição por uma inesperada peça do destino, não soubemos rir de nós mesmos, achamos a piada sem graça. Basta lembrar que um simples “Ah, mas é o Ti-ri-ri-ca!” torna-se um anátema, sob o qual toda justificativa ou explicação parece dispensável! Isso se deu há quatro anos, mas se repete agora: muitos continuam mordendo a isca e, em meio a outros 512 deputados, batem insistentemente em um único representante do povo, da irreverência do povo, da falta de reverência do povo às regras ditadas (e tácitas) de sempre simplesmente por ser… povo.

Se não é nada disso, amigo leitor, me perdoe – e me demonstre com paciência meus enganos. Mas que parece muito isso… ah, parece!

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Sávio Mota

Sávio Mota

Cearense de cabeça pontuda, dizem que é jornalista e rebento da tal geração Y. Cético desde sempre e corinthiano desde que é gente, gosta de ciências e futebol, cinema e documentários de tevê - além de ser apaixonado por História e por Evolução. É CODA. Tem um pequeno canal no Youtube, "O Mundo Paralelo de Neander". Wanna be a scientist. Normal não é.

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