Valor da Terra

Um papo sobre mudanças climáticas

Para início de papo, vamos estabelecer que esse texto não tem a pretensão de abrir um debate sobre a existência ou não do Aquecimento Global. Esse tipo de questionamento teve sua relevância nos anos 90. Hoje, o mundo tenta encontrar formas de conter o aumento da temperatura média na casa dos 2°C para as próximas décadas. A única coisa que ainda não está totalmente clara para a comunidade científica, portanto, e é passível de discussão é a questão: qual seria o percentual de culpa das atividades antrópicas, neste cenário?

Mudanças climáticas como você já deve ter percebido, é um assunto muito debatido e citado nas Redes Sociais: “- Maldita chuva!”, “- Maldito calor!”; nas paradas de ônibus: “- Tá calor, né?”, “- Huuum, acho que hoje chove!”; nos conselhos de mãe: “- Não esquece o guarda-chuva!”, “- Leva o casaco, vai fazer frio…”.

Fora do Twitter, todos estão de certa forma acostumados com as sazonalidades do clima. Existem meses em que abrir uma sorveteria é o negócio mais lucrativo do mundo e outros em que você sente inveja do lucro do camelô que vende sombrinha. E assim, todo mundo pode programar com antecedência aquelas férias em Acapulco, em um período no qual é possível pegar um bronze maneiro. Quando tratamos de Aquecimento Global, a principal consequência negativa, contudo, não é simplesmente o calor, piscina e ar condicionado já resolvem bem esse problema. A maior preocupação é a quebra dos ciclos sazonais e o impacto que essas mudanças acarretam aos ecossistemas.

Quando me mudei do Rio de Janeiro para Brasília, todo final de semana era certo pegar um resfriado maroto. Cheguei até a ser convidado para um churras na casa do dono da farmácia. E foi assim durante alguns meses. Até que meu organismo finalmente se adaptou ao “maravilhoso” clima desprovido de umidade do Cerrado, com suas estações muito bem definidas: o verão e as de rádio.

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Quem já se deslocou por algumas regiões do globo, sentiu literalmente na pele que o sol pode ser muito mais severo (e é nesse momento que damos razão ao Pedro Bial: filtro solar faz uma grande diferença!). Ou então, se desencantou com a neve quando teve que “desenterrar” o carro, enquanto as lágrimas congelavam. Para qualquer indivíduo, adaptar-se a um novo clima pode ser bastante complicado. Mas diferentemente do Cumpádi Washington tirando férias na Finlândia, bichinhos e árvores não podem se refugiar no aquecedor do hotel.

Em artigo publicado na revista Science intitulado “A Reconstruction of Regional and Global Temperature For The Past 11.300 Years”, pesquisadores das universidades de Havard e Oregan demonstraram por meio de uma base intensa, e de certa forma, “revolucionária” de coleta de dados, que o aquecimento atual é anômalo em relação às médias de temperaturas e aos picos de temperaturas máximas e mínimas dos últimos 11.300 anos. Ou seja, até houve dentro deste período interglacial (que chamamos de Holoceno) momentos em que a temperatura global alcançou níveis maiores do que os medidos da revolução industrial até aqui.

Há cerca de 6 mil anos, a Terra estava tão quente quanto hoje. A diferença é o ritmo atual. Uma variação de 0,5 grau, que levava de 2 mil a 4 mil anos para ocorrer no ritmo natural, agora acontece em menos de um século. É muito rápido para que as espécies, os ecossistemas, ou mesmo as nações consigam se adaptar. A taxa de variação da temperatura pós Revolução Industrial, é totalmente abrupta. Isso gera um impacto devastador aos ecossistemas e consequentemente na biodiversidade do planeta. As temperaturas das últimas décadas já são maiores do que 75% de todo o período do Holoceno. E até as mais otimistas projeções do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), apontam que até 2100 o recorde de temperatura será quebrado. Dada essa discrepância entre as variações climáticas, uma tendência na academia é distinguir o período atual do Holoceno, que vem sendo chamado de Antropoceno.

No Brasil, o PBMC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas) traz em seus relatórios, projeções distintas para cada bioma em relação ao aumento da temperatura média e o nível de precipitação (chuva). Segundo os dados do PBMC, a temperatura na Amazônia por exemplo, deverá aumentar progressivamente de 1 ºC a 1,5 ºC até 2040 – com diminuição de 25% a 30% no volume de chuvas –, entre 3 ºC e 3,5 ºC no período de 2041 a 2070 – com redução de 40% a 45% na ocorrência de chuvas –, e entre 5 ºC a 6 ºC entre 2071 a 2100.

Essas mudanças nos padrões de precipitação, exercem impactos diretos na agricultura, na produção e distribuição de energia e nos recursos hídricos em geral. O PBMC alerta ainda que é preciso rever decisões de investimento, como a construção de hidrelétricas nas regiões leste da Amazônia, onde os rios poderão sofrer uma redução da vazão de até 20%. Mas apesar de alguns entraves políticos (alô, bancada ruralista, aquele abraço!), o país está correndo para desenvolver ações de adaptação e mitigação específicas para cada bioma.

A agricultura é um dos setores que vêm se adiantando para superar os impactos das mudanças climáticas. A Embrapa já está trabalhando com condições de adaptação há mais de oito anos, desenvolvendo cultivares tolerantes a temperaturas elevadas e/ou a deficiência hídrica. Demais temáticas também estão recebendo ganhando destaque nas pautas governamentais, como a revisão do planejamento urbano, os modelos de transporte público, reciclagem e utilização de biomassa renovável na indústria, nas edificações visando o controle no consumo da madeira e eficiência energética na construção civil.

A lista de medidas e ações que devem ser adotadas é enorme, e as decisões são para ontem. Grande parte da população brasileira (em especial a que habita regiões costeiras) está vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. As variações naturais da paisagem e as diferenças socioeconômicas presentes no nosso território continental tornam a busca por soluções uma tarefa árdua. O ponto positivo é que tem muita gente séria preocupada, discutindo e elaborando planos de mitigação aos impactos do Aquecimento Global.

Nesse exato momento, estou sistematizando dados para formular a participação do IPAM (Instituto de Pesquisa da Amazônia) no documento de “Contribuição Nacionalmente Determinada” (NDC) do Brasil. O NDC é um plano de ação que der ser elaborado por cada país e integrado em um novo acordo, procedente ao Protocolo de Kyoto a partir de 2020. Esse novo acordo será firmado na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ano que vem (2015), na França.

Nunca antes na história desse país houve tanta preocupação, de forma geral, com essa temática. Logo, aconselho aos negacionistas a irem procurar outra teoria conspiratória para fazer “mimimi”…

Como esse é um assunto vasto, continuaremos abordando o tema nos próximos capítulos, antes do segundo sol chegar. Aguardem!

 


Referências:

Riscos das Mudanças Climáticas no Brasil, Análise Conjunta Brasil-Reino Unido sobre os Impactos das Mudanças Climática s e do Desmatamento na Amazônia, Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – CST/INPE, Met Office Hadley Centre – MOHC (2011).

ARAUJO, M. ; AMBRIZZI, T. ; BARBOSA, H. M. J.. Sumário Executivo do Volume 1 – Base Científica das Mudanças Climáticas. Contribuição do Grupo de Trabalho 1 para o 1o Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Em: Moacyr Araujo; Tercio Ambrizzi. (Org.). Sumário Executivo do Volume 1 – Base Científica das Mudanças Climáticas. Contribuição do Grupo de Trabalho 1 para o 1o Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.. 1ed. 2012.v. 1, p. 1-34.

Shaun A. Marcott, Jeremy D. Shakun, Peter U. Clark, and Alan C. Mix. A Reconstruction of Regional and Global Temperature for the Past 11,300 Years. Science 8 March 2013: 339 (6124), 1198-1201. [DOI:10.1126/science.1228026]

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André Gomes

André Gomes

Fã de Homem-Aranha, Sagan, Hitchens e Yuyu-Hakusho, é considerado por ele mesmo o melhor guitarrista do seu quarto (há controvérsias). De tanto ser chamado de “fiscal da natureza”, decidiu cursar Gestão Ambiental na UNB, e agora, diferentemente dos seus heróis da infância, pretende cobrar para salvar o mundo. Sempre disposto a debater sobre política, futebol e religião (só para contrariar o ditado popular), aprendeu que Teoria é diferente de teoria, que não é nada menos do que poeira das estrelas e que a resposta é 42.

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