Humanismo

Direito de opinião e opinião de direito

De uma maneira bastante vexatória, do tipo que me remete à vergonha alheia, ouço duas colegas de trabalho discutindo sobre uma mulher e sua nova namorada, ao qual almeja um casamento em breve. Frases feitas como “Cada um escolhe o que quer, né?” ou “O importante é ser feliz.” ecoam tão malvadamente quanto as afirmações insossas que se seguiriam, que são “Que coisa esquisita…”  e “Duas mulheres nunca darão certo.” pleitearam o pouco tempo de auto afirmação entre as duas amigas. Contive-me para a conversa, pois sabia – por já ter ocorrido antes com uma delas – que a discussão era vista por ambas como “muito intelectual” (leia-se: chata) e retrocedendo à parcimônia do direito de cada um ser o que quer.

Elas – assim como a maioria das pessoas que vemos em nossa volta – não pensam assim, elas não acham que a pessoa tenha totais direitos que elas possuem, apenas emolduram seus arquétipos preconceituosos em banais rótulos sociais e promovem ideias desagregadoras, onde sempre alguém terá um aspecto a ser criticado. E estas criticas acabam usando uma armadura forjada no fogo da ignorância para defender-se com bradares “mas tenho o direito a pensar diferente”.

Ora, uma pessoa tem todo o direito de pensar diferente, de agir diferente, mas é necessário fazê-lo? E mais que isso: até que ponto possui-se o discernimento cognitivo e trabalhado para compreender o quanto a opinião respaldada neste direito pode afetar a todos em sua volta? Não, isto é irrelevante (consciente e inconscientemente) na perspectiva destas pessoas, o que torna mais difícil ainda uma concepção global da necessidade de se introjetar os conceitos de direito. As pessoas acham que por terem direitos podem ferir o dos outros (e sim, repetir frases como mais acima citadas é ferir o direito da amiga que quer se casar com outra mulher).

Ter, por assim, o direito de opinião não é necessariamente a opinião de direito. A primeira não é abrangente para as mais desvairadas regalias verbais, mas mesmo assim é feita como se fosse. Opinião de direito somente se alinha ao direito de fato se a mesma for incorporada ao respeito ao ser humano em sua totalidade. Uma opinião ofensiva e desagregadora não possui necessidade alguma de ser respeitada.

Existe, por tanto, a necessidade explícita de se abranger toda noção de igualdade, não apenas leis e constituições que promulguem estes, mas promovam meios de educação às pessoas para que estas entendam seus direitos e seus deveres. E por que é importante que as pessoas entendam? Não apenas pela individualidade da empatia com o poder de ser/querer ser de alguém, mas por que numa multidão de opinadores reclusos sempre poderá aparecer alguém a disseminar suas bravatas despóticas, o que geraria um caos no comportamento da sociedade. E todos, de uma forma ou de outra, perderíamos.

Isto, para ficar claro, não é a respeito dos direitos que homossexuais devem ter com relação aos seus enlaces, mas a concepções que as pessoas fazem em relação àquelas serem exatamente o que são/querem. Enquanto acharmos que nosso direito de criticar as atitudes de outros for tão válida quanto o das criticadas de terem suas ações postas à prova, jamais conceberemos uma humanidade realmente justa.

Este texto, como os das demais colunas opinativas do portal, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do papodeprimata.com.br.


Henrique Dal Bo Campanilli

Henrique Dal Bo Campanilli

Henrique é poeta, colunista, aprendiz de cachaceiro e de gaita; torce pela humanidade, apesar desta muitas vezes não lhe dar motivos para tal.

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