Valor da Terra

Falando sobre agricultura…

Desde o início das eras, mais ou menos quando o menino Paulo Baier começou a dar os seus chutes, os profetas do apocalipse já davam o ar da graça. De tempos em tempos essa turminha do barulho vocifera as más novas apocalípticas do conspiracionismo. Pois bem, por “increça que parível”, muito antes do Facebook, as pessoas já curtiam e compartilhavam com os amigos as mais estapafúrdias histórias sem se preocuparem em verificar fontes e autenticidade (vamos aliviar, que ainda não existia o Google).

Ocorria que, de vez em quando, algumas dessas “previsões” procuravam seguir um mínimo de lógica empírica, se possível de fácil assimilação. E é ai que mora o perigo! O estrago causado pela omissão ou desconhecimento de um fator chave, para a percepção de que a equação proposta não é tão complicada assim, pode levar até o mais cético a tremer nas bases e sair estocando comida em algum bunker.

Thomas Malthus postulou a chamada Teoria Populacional Malthusiana, na qual dizia que o exponencial aumento demográfico dos farofeiros da galáxia (também conhecidos como seres humanos) estaria conduzindo os mesmos, dentro de um curto espaço de tempo, a um período mais caótico do que filme do Tarantino devido à eminente escassez de alimentos. O pânico gerado foi equivalente ao do “Bug do Milênio”, mas assim como os computadores não desaprenderam aritmética derrubando todos os aviões na virada para o ano 2000, nós continuamos por aqui, nos dando ao luxo de “torcer o nariz” para uma salada de jiló (sim, nem todos dispõem de comida em abundância, mas isso é uma outra história).

Sugarbeet FieldObviamente Malthus errou feio, errou rude! Ele não contava com a astúcia da Ciência e o desenvolvimento tecnológico. Como você já deve saber, o início da civilização humana é concomitante com o surgimento da agricultura e o nascimento do Raul Seixas, por volta de 10 mil atrás. A possibilidade das tribos nômades se fixarem em um local, liberou tempo para que a mente humana pudesse pensar em outras coisas além de correr atrás de bacon (acho que ainda não evoluiu…). Logo, graças a uma boa utilização do ócio, saímos das cavernas para um apartamento com internet onde podemos assistir a um vídeo de gatinho e contar ao mundo o quanto o dia está chato no perfil do Facebook.

De banhos no Nilo para cá, passamos por várias revoluções agrícolas. Exemplos: Sistema de Pousio que é a técnica de abandonar o solo por algumas safras para a sua recuperação; rotação de culturas e a integração da lavoura com a criação de animais para adubação do solo; utilização de fertilizantes e defensivos químicos na correção do solo e eliminação de pragas; Revolução Verde com o melhoramento genético; Plantio Direto, e etc., até chegarmos ao assunto do post, que é a Agricultura de Precisão.

“O termo agricultura de precisão engloba o uso de tecnologias atuais para o manejo de solo, insumos e culturas, de modo adequado às variações espaciais e temporais em fatores que afetam a produtividade das mesmas. (EMBRAPA, 1997)”

Essa definição da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), evidência que Agricultura de Precisão é na verdade um conjunto de práticas. Alguns autores a definem como uma filosofia de gerenciamento e manejo. O certo é que além de ser uma das responsáveis por melar as previsões de Malthus, a boa utilização dessas técnicas se enquadram perfeitamente no almejado tripé da sustentabilidade. Para que um produto ou serviço possa ser considerado sustentável, ele tem que ser viável economicamente, socialmente e ambientalmente, lembram?

Técnicas de manejo, correção do solo, produtividade do campo, insumos, defensivos químicos… Não se assuste caso não esteja familiarizado com nenhum desses termos. Prometo que as explicações serão bem simples para que seja possível concluir a leitura e sair manjando um pouco dos “paranauês”. Um dos grandes problemas da Agricultura, talvez o maior, seria a degradação dos solos. Devemos ter em mente, que a ideia de solo aqui vem da edafologia/pedologia, áreas do conhecimento que classificam e estudam a morfologia, a dinâmica de solos e suas interações com os seres vivos.

O agrônomo ou agricultor com base nesse conhecimento, vai direcionar a melhor forma de utilizar a área disponível para plantio e demais atividades do campo. Cada solo tem suas características que variam de acordo com a origem e tempo de formação, se é arenoso ou argiloso, se é novo ou antigo e por ai vai. Para que uma plantinha possa se desenvolver bem, ela precisa dispor de nutrientes do solo onde ela se encontra, isso é bem básico. Mas um ecossistema uma via de mão única não se perpetua. O nutriente que a plantinha retirou do solo irá retornar com a decomposição dos organismos presentes na região. Quanto maior a complexidade de um ecossistema, mais estável e duradouro ele é. Em outras palavras são necessários vários ciclos ocorrendo com uma diversidade de fauna e flora que mutuamente se sustentam.

Vamos imaginar uma grande monocultura. Em um determinado solo eu só vou plantar batatas, porque foi isso que todo mundo mandou. Primeiramente eu limpo toda a área, depois venho com a minha cultivar escolhida, aplico uns tóxicos para que nada além das minhas batatinhas se desenvolva e que também nenhum bichinho venha bagunçar a minha plantação. Chegou a época da colheita é retirado tudo do solo com maquinário deixando o campo limpo novamente, e um tempo depois repete-se todo o processo. Percebeu que faltou alguma coisa? Nenhum nutriente retorna para o solo com essa prática. E para piorar, quando a terra fica exposta sem nenhum tipo de cobertura vegetal, o processo de degradação e esgotamento acelera. “- Ah, mas o povo taca os adubos e os nutrientes que vende por ai e tá tudo resolvido!”

Convenhamos que não há condições de que se uma pessoa deseja se tornar atleta, não pode focar a sua dieta exclusivamente em suplementos vitamínicos, que são apenas complementares a uma boa alimentação. Logo, não há como esse tipo de plantio se sustentar por muito tempo, uma vez que acabam-se os nutrientes e degrada-se o solo, e o agricultor parte para novas áreas. Não é por acaso que apesar do nosso tamanho continental, temos diversos conflitos envolvendo desmatamento de áreas protegidas, invasão de terras indígenas, parques ecológicos e afins, estampando quase que diariamente os noticiários do país. São as grandes monoculturas avançando como gafanhotos famintos por terra.

“- E nas Zoropa, como faz se lá tem pouca terra?” Verdade seja dita, para um Mezenga ser rei de alguma coisa no velho continente, ele terá que aprender a mexer uma massa, porque do gado somente o primo Bruno no Brasil. Uma das vantagens na Europa é que a formação geológica dos solos é relativamente nova. Portanto no geral as terras são bem férteis (inclusive tá todo mundo de olho na Ucrânia que é verdadeira terra do “tudo que se planta nasce”). Fora esse detalhe, a agricultura europeia é constituída majoritariamente por pequenas propriedades, e com um detalhe MUITO importante: o  uso da terra é concessão do Estado. Isso significa que não tem esse papo de expandir a área para ganhar grana só na especulação; a terra tem que ser produtiva! Mas apesar das terras agrícolas serem naturalmente bem produtivas, só isso não bastaria para atender a demanda da região. A questão é que, caso não queiram derrubar alguns castelos, não há para onde correr, senão aumentar a eficiência do solo.

A maioria das tecnologias agrícolas foram desenvolvidas na Europa devido essa necessidade que a barreira física impôs. Como muito bem descrito no excelente livro “Armas, Germes e Aço”, do Jared Diamond, todos os problemas que o europeu tinha que lidar oriundos do clima e sazonalidades intensas durante as estações do ano, fizeram com que eles se desenvolvessem muito mais rápido do que por exemplo o índio na América, que tinham sombra e água fresca o tempo inteiro. E é exatamente por esse motivo que nós fomos colonizados e não o contrário, e a agricultara talvez seja uma das provas de que essa lição ainda não foi aprendida.

O primeiro passo para aumentar a produtividade de um solo é não deixá-lo inutilizado por um longo período. Mas por várias razões é complicado plantar o mesmo cultivar que acaba de ser colhido, eis que surge a rotação de culturas. Se uma planta não é igual a outra, a metabolização dos nutrientes tende a ser variável, um cultivar fixa melhor o nitrogênio, outro retira mais cálcio e essa complexidade das trocas no ecossistema,como expliquei a pouco, faz com que o solo não seja degradado. O conhecimento de qual tipo de vegetação consume e fixa melhor nutriente X ou Y, é o que permite que regiões improdutivas possam ser recuperadas através do plantio rotativo dessas espécies, independe se for para a agricultura ou para restauração da flora nativa.

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Aliviamos um problema, mas a cidade só cresce a cidade não pare e quer consumir. O campo teve que se adaptar a esse ritmo muito louco e trabalhar nos padrões de uma empresa. E aqui, definitivamente, a Agricultura de Precisão faz o diferencial. Não é mais uma questão apenas de suprir o consumo interno; o agricultor também tem que alimentar a Economia abastecendo as indústrias!

Quem só plantou brotinho de feijão no algodão durante os primeiros anos de escola talvez não faça ideia de que hoje o cálculo é obtido com o cruzamento de dados do espectro eletromagnético, da evapotranspiração das plantas, volume de irrigação ideal controlado por gotejamento, soldagem e mensuração dos nutrientes no solo entre outros, feito por gradeamento com espaçamento de até alguns metros, convertidos e inseridos em um sistema de navegação instalado em uma máquina agrícola, que via GPS aduba de forma automatizada a área rural, com a quantidade ideal de insumos para cada ponto do gradeamento.

O resultado dessas práticas em conjunto, além de viabilizar a redução da área utilizada, torna eficiente a aplicação de insumos, defensivos e irrigação gerando enorme benefício ambiental e econômico. É possível para o produtor que se beneficia dessas tecnologias, estimar com segurança o rendimento da safra, antes mesmo dela ser plantada o que é uma grande vantagem dentro de um mercado tão competitivo.

Mesmo com a participação expressiva do setor do Agronegócio no PIB, o Brasil ainda está muito aquém das práticas de Agricultura de Precisão aplicadas em países europeus e nos EUA. Tanto pela defasagem tecnológica, mas principalmente pela falta de disseminação desses conhecimentos para o agricultor. O resultado expressivo só é alcançado com a uso correto e integrado das práticas, como isso dificilmente ocorre, o agricultor em geral se frustra por não ter o retorno imediato esperado, gerando um descredito ao uso dessas tecnologias. Felizmente, este quadro vem gradualmente sendo alterado, e já existem movimentos do Governo no sentindo de instruir e capacitar o produtor rural.

A escassez de alimento já não pode ser atribuída a um problema de produção. Nos últimos 12 anos, a produção agrícola aumentou 150%, enquanto a área agricultável apenas 30%.  Existem sim, outros fatores que até podem nos levar a uma crise de abastecimento, porém é muito improvável que atinja o nível global. As tecnologias em conjunto com as Ciências Naturais já resolveram a questão. Portanto, sempre que for apostar em algum profeta, aposte naquele que faz uso do desenvolvimento científico para vislumbrar o amanhã. Arthur C. Clarke acertou em cheio quando previu um sistema de informação global por meio de satélites geoestacionários, muito antes do Sputnik passar um bip do espaço para a Terra. Agora, além de transmitir UFC e auxiliar o pessoal que não gosta de pedir informação na hora de achar um endereço, os satélites estão ai ajudando o campo a produzir como nunca, evitando o apocalipse malthusiano!

 


Referências:

Tschiedel, Mauro and Ferreira, Mauro Fernando INTRODUÇÃO À AGRICULTURA DE PRECISÃO: CONCEITOS E VANTAGENS. Cienc. Rural, Fev 2002, vol.32, no.1, p.159-163.

Silveira, José Maria Ferreira Jardim da, Borges, Izaias de Carvalho and Buainain, Antonio Márcio Biotecnologia e agricultura: da ciência e tecnologia aos impactos da inovação. São Paulo Perspec., Jun 2005, vol.19, no.2, p.101-114.

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André Gomes

André Gomes

Fã de Homem-Aranha, Sagan, Hitchens e Yuyu-Hakusho, é considerado por ele mesmo o melhor guitarrista do seu quarto (há controvérsias). De tanto ser chamado de “fiscal da natureza”, decidiu cursar Gestão Ambiental na UNB, e agora, diferentemente dos seus heróis da infância, pretende cobrar para salvar o mundo. Sempre disposto a debater sobre política, futebol e religião (só para contrariar o ditado popular), aprendeu que Teoria é diferente de teoria, que não é nada menos do que poeira das estrelas e que a resposta é 42.

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2 respostas

  1. Ciro Rockert disse:

    Bon texto! Claro e bem-humorado. Gostaria que escrevesse sobre as hortas comunitárias como uma solução urbana e sustentável.

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