Opinião: O RELOJOEIRO CEGO

O RELOJOEIRO CEGO
(The Blind Watchmaker)
Richard Dawkins, 1986

William Paley, teólogo e filósofo que viveu no século XVIII, elaborou um argumento teleológico que se tornou famoso e repetido à exaustão por defensores do design divino desde então. A ideia era a a seguinte: Paley imaginou-se caminhando em um descampado e encontrando um relógio no chão. Ao contrário de uma pedra que também ali estivesse (e que alguém poderia acreditar que sempre esteve lá), o relógio seria um objeto necessariamente criado por alguém. A sua complexidade exigia um projetista, sendo, portanto, uma prova inequívoca da existência de um criador que o havia concebido com o propósito específico de ser um relógio. Por analogia, dada a inegável complexidade dos seres vivos, não seria possível negar que foram projetados por um criador consciente, que os concebeu deliberadamente com objetivo de serem o que são.

Richard Dawkins, em “O RELOJOEIRO CEGO”, tem o objetivo de demonstrar que, não obstante a construção lógica do argumento de Paley, sua conclusão estava errada. Um relojoeiro projeta molas e engrenagens combinando-se entre si com um fim previsto em mente: criar um relógio. Porém, a seleção natural, o processo natural pelo qual a evolução dos organismos vivos ocorre, não projeta, não prevê nem espera nada. Suas ferramentas não são pinças e alicates, mas genes que, ao se multiplicarem, sofrem mutações que influenciarão fenotipicamente os indivíduos que os possuem, aumentando ou diminuindo a capacidade dos mesmos sobreviverem em um ambiente em constante mutação. Não há vontade nem determinação na evolução, apenas a obediência às leis da física e da química. Se a seleção natural tem o papel de um relojoeiro, é o papel de um relojoeiro cego!

Este é, talvez, o mais apaixonado livro de Dawkins. O desejo do autor é confesso já no início da obra: inspirar no leitor uma visão da existência como um mistério de dar frio na espinha, e entusiasmar com a apresentação de uma solução elegante e simples para esta questão. E consegue o intento em boa medida! Dawkins não esconde sua parcialidade ao demonstrar que a seleção natural não apenas é verdadeira, mas a única solução possível para explicar como os seres vivos atingiram o nível de complexidade atual. Uma mecanismo evolutivo tão eficiente que certamente funcionaria em todo o universo, onde quer que existisse uma forma de vida.

Não é um objetivo exatamente despretensioso, mas para atingi-lo Dawkins faz uso de um criativo conjunto de argumentos e ideias. Por exemplo, a explicação de como o olho humano evoluiu paulatinamente através de diversas formas transicionais, de células fotossensíveis capazes apenas de diferenciar claro e escuro – passando por etapas intermediárias com capacidade, em diferentes graus, de identificar formas e cores – até olhos ainda mais complexos que os nossos. Rejeitando completamente a ideia de que “meio olho” (ou “meia asa”) não serviria para nada, o argumento criacionista da complexidade irredutível é derrubado para não mais se levantar.

Aliás, ainda falando de visão, é fascinante a parte do livro em que o autor explica detalhadamente como algumas espécies de morcegos quase cegos são capazes de “enxergar” através da ecolocalização, formando uma imagem tridimensional complexa (possibilitando aos animais a percepção de objetos em movimento ou a textura das superfícies) através da audição. E faz uma divertida perspectiva de uma fictícia “sociedade de morcegos”, onde os estudiosos se espantariam com a descoberta de que humanos enxergam através da passagem de luz pelos olhos!

Dawkins versa eficientemente sobre milagres e probabilidades de sugimento da vida, sobre o exagero midiático envolvendo o equilíbrio pontuado e sobre feedbacks positivos explosivos (processos que se retroalimentam com intensidade crescente e com potencial de descontrole) na seleção natural, mas o que destaca este livro do restante da bibliografia do autor é a forte correlação com a tecnologia. Para explicar alguns pontos, Dawkins faz uso de analogias com arquivos de computador, formas de armazenamento e memórias RAM. Profissionais da área de informática, portanto, terão mais facilidade em entender estas comparações que o restante do público.

Porém, sem sombra de dúvida, o que tornou ‘O RELOJOEIRO CEGO’ um clássico foram os “biomorfos”. Este nome, deve-se dizer, não foi concebido por Dawkins (seu autor é o biólogo Desmond Morris, que o cunhou para batizar criaturas presentes em suas pinturas), mas neste livro foi utilizado para designar as formas geradas por um programa de computador, desenvolvido pelo autor, que simula o mecanismo pelo qual a seleção natural “cria” espécies.

O que Dawkins fez foi programar uma aplicação chamada EVOLUÇÃO capaz de, a partir de um início simples (um pequeno traço), gerar “mutações” aleatoriamente, formando vários indivíduos distintos (os biomorfos) a cada “geração”. Ele então fazia o papel do “meio ambiente em constante mudança”, selecionando um entre vários indivíduos mutados. A próxima geração começava então do indivíduo selecionado (os demais eram descartados). Conforme a complexidade aumentava, árvores diferentes iam surgindo, formando desenhos que se assemelhavam a insetos, rostos, máquinas, objetos. Um verdadeiro “ecossistema” de biomorfos surgia da tela. O programa acabou gerando a ideia (desenvolvida também no livro) de “espaço genético”: um matriz (bidimensional para os biomorfos, mas de várias dimensões para os seres vivos do mundo real) onde cada indivíduo tem como vizinhos outros que se diferem dele por apenas uma mutação. Assim, seria teoricamente possível precisar a diferença genética entre indivíduos de duas espécies apenas calculando a distância dos mesmos neste modelo. O programa de computador transcendeu o escopo do livro e encontra-se disponível em várias versões para download na Internet.

É fato que ‘O RELOJOEIRO CEGO’ exige do leitor um pouco mais que outros livros do autor. Mas tornou-se um clássico instantâneo por ser bem escrito, honesto e didático. Quase três décadas depois de escrito, a genuína empolgação de Richard Dawkins ainda é capaz de contagiar!

Nota 10

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